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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O PODER DO HUMOR CONTRA O PODER RISÍVEL

Julho 17, 2018

J.J. Faria Santos

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Sacha Baron Cohen, na pele de Ali G, Borat ou Brüno, sempre praticou um humor corrosivo e transgressor. A sátira aos costumes de uma nação ou a impiedosa desmontagem dos rituais do mundo da moda, por exemplo, parecem ter tido como único limite a sua imaginação para compor quadros hilariantes mas sobretudo ousados na sua concepção e concretização. De tal forma que alguns viram no seu estilo de fazer humor uma mera exploração infinita do efeito-choque.

O último projecto de Cohen, Who Is America?, mesmo antes da estreia provocou reacções adversas de entrevistados como Sarah Palin, quando percebeu ter sido vítima de uma partida do comediante britânico. Palin acusou-o de ter desrespeitado os veteranos de guerra americanos. Cohen respondeu na pele de uma tal Dr. Billy Wayne Ruddick, alguém que “só lutou pelo seu país uma vez quando disparou contra um mexicano que invadiu a sua propriedade”, acusando-a de ter sido atingida por “uma granada de falácias e estar a esvair-se em notícias falsas”.

 

A reacção do Dr. Ruddick apareceu no site Truthbrary (um neologismo destinado a ser o antónimo de um outro neologismo criado a partir de um jogo de palavras com lie e library). O Truthbrary assume a rejeição dos média tradicionais e pretende combater a falsa informação por eles propagada, e apresenta-se como uma selecção de estudos e inquéritos conduzidos “a favor do bem-estar do povo americano”. O site opta por um lettering carregado e/ou garrafal e tem um visual próximo dos da extrema-direita americana. À semelhança dos tweets de Trump, não faltam erros ortográficos. Eis uma amostra de alguns dos títulos das suas notícias: “Obama é queniano”, “Alemães sujeitos à sharia...Princípio do fim?”, “Sinais de que Hollywood é dirigida por uma elite satânica”, “As Forças Armadas implantaram um pó neural nas suas vítimas para as poder controlar remotamente”.

 

O que hoje pode ser entendido como chocante nesta encarnação de Sacha Baron Cohen é que ele nos confronta com uma realidade inequívoca. A sátira que supostamente carregaria em certos traços, ideias e situações para provocar o riso tem de se reinventar para não se limitar a ser uma retrato quase fiel de uma realidade, ela sim, delirante e tonitruante nas suas manifestações. Trump pode parecer um ditador de opereta, ignorante e inconstante, espalhando falsidades, inexactidões e puras mentiras, mas ocupa um lugar central no poder do mundo, acolitado por correligionários subservientes. Talvez o humor iconoclasta de Cohen contribua com a sua ferocidade para ajudar a demolir o muro de irrealidade que o trumpismo erigiu e que os argumentos racionais não têm sido capazes de combater eficazmente.

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