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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O PODER DE UMA BOA HISTÓRIA

Maio 28, 2019

J.J. Faria Santos


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“Não há nada mais poderoso no mundo do que uma boa história”, disse Tyrion Lannister algures no episódio final da Guerra dos Tronos. E acrescentou que nenhum inimigo a poderá derrotar. Para uma série que se esmerou na exibição da violência e da brutalidade, mesmo que por vezes em nome de nobres sentimentos ou justas ambições, esta fé ilimitada no poder de uma narrativa superlativa não deixa de ser singular. Claro que uma boa história não tem de ser necessariamente exemplar e eticamente inatacável; muitos vilões e muitas criaturas de baixa reputação protagonizaram histórias grandiosas. Muitas vezes, aliás, a bondade não produz grandes ratings. Nem sequer obras artisticamente relevantes.

 

A série baseada nos livros de George R.R. Martin (que se viriam a revelar insuficientes para a alimentar) acabaria por ser um êxito planetário de audiências ao mesmo tempo que reunia os favores da crítica. Como terminar de forma magistral uma “boa história”? Eis um propósito que fatalmente teria de gerar insatisfação. Judy Berman, na Time, lamentou que na temporada final a aposta nos efeitos especiais suplantasse a “energia aplicada no desenvolvimento dos personagens e dos conflitos ideológicos” nas temporadas prévias. Berman notou ainda que a Guerra dos Tronos atingiu um elevado “patamar de significado cultural” e aí se manteve, mesmo quando a “qualidade do argumento declinou”.

 

Já Sarah Larson, escrevendo na edição online da New Yorker e referindo-se a Jon Snow, Arya e Sansa interrogou-se: “Porque é que estas almas nobres e complexas têm de acabar sozinhas, algumas relegadas para reinos distantes?” Como espectador moderadamente entusiasmado pela série, da qual nem sequer vi todas as temporadas (sacrilégio!), confesso a minha atracção pela alma negra e complexa de Cersei Lannister. Por mim, teria direito também ao exílio na solidão (que se associa comummente ao poder, mas também à perda dele), porém, admito que haja uma certa justiça poética no facto de perecer na companhia do amor proibido, depois de um percurso de vida que foi da humilhação pública à ostensiva exibição de um impiedoso poderio. O seu último frame mostra um rosto no meio dos escombros. Intacto. Derrotada pelo desabar da fortaleza que a protegia, Cersei escapou, todavia, ao cativeiro ou à morte infligida directamente pelos seus inimigos. As almas guerreiras não se deixam capturar pelos desafiadores vitoriosos.

 

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