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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O HERÓI IMPERFEITO

Março 06, 2022

J.J. Faria Santos

ZELENSKY.jpg

"Sente-se comigo para negociar, mas não a 30 metros. De que é que tem medo? Eu não mordo." Foi com esta afirmação, ao mesmo tempo provocatória e desafiadora, que Zelensky intimou Putin a um encontro, olhos nos olhos, à mesa das negociações. Mesmo achando, como revelou a Bernard-Henri Lévy (Expresso, edição de 4/03/22), que Putin “tem olhos, mas não tem olhar, ou então, se tem um olhar, é um olhar de vidro, vazio de qualquer expressão”.

 

O que leva o líder de um país invadido e bombardeado a interpelar desta forma contundente o seu poderoso inimigo é, seguramente, o impulso moral, com respaldo no Direito Internacional, de que a força da razão deve prevalecer sobre a razão da força. Nada, seguramente, que comova ou faça reflectir o czar autocrata que desencadeou a “operação militar especial”. Mas ao erguer a tocha de resistência, ao recorrer a uma retórica simples, eficaz e mobilizadora, onde, podemos especular, se cruza o timing da comédia com a urgência da tragédia e a eloquência da necessidade, Volodymyr desarmou o plano de Vladimir de uma conquista fulminante.

 

Incomodados com um certo endeusamento, há quem relembre o perfil populista de Zelensky e o seu envolvimento nos Pandora Papers (que revelou uma rede de empresas offshores detidas por ele e pessoas próximas), e a circunstância de a Ucrânia alimentar uma corrupção endémica, apesar do discurso anticorrupção da campanha do seu Presidente. E, no entanto, como não apreciar o homem que se eleva à altura das circunstâncias? E, sem cair no relativismo moral, como não estabelecer uma hierarquia de prioridades em que o combate a um tirano que ameaça a paz mundial prevalece sobre outras considerações?

 

Aliás, convém que não esqueçamos que se a verdade é a primeira vítima da guerra (e já era alvo privilegiado em tempos de paz, graças aos “factos alternativos” e, inclusivamente, às campanhas de dezinformatsiya da Rússia), um conflito bélico torna os homens escravos da necessidade. E, citando Jonathan Littell em As Benevolentes, “a necessidade, já os gregos o sabiam, é uma deusa não só cega mas também cruel”. Neste contexto, dificilmente se encontram heróis perfeitos, nem sequer aspiramos a tanto – contentamo-nos que, na medida do possível, incorporem na sua coragem uma dose inalienável de humanidade.

 

Imagem: magg.sapo.pt

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