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NO VAGAR DA PENUMBRA

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O EVANGELHO SEGUNDO ARETHA FRANKLIN

Agosto 21, 2018

J.J. Faria Santos

 

“Prece, amor, desejo, prazer, desespero, arrebatamento, feminismo, Black Power – é difícil pensar numa artista que nos tenha apresentado um retrato mais aprofundado do seu tempo”, escreveu David Remnick na New Yorker online, celebrando o legado de Aretha Franklin, cuja voz, no entender dele, era a “expressão pura, dorida e inesquecível da história e do sentir americanos, da experiência colectiva dos negros americanos e da sua própria vida.”

 

Filha de um pastor de Detroit, cedo conviveu com intérpretes do calibre de Nat King Cole e Mahalia Jackson. Firmemente ancorada nas raízes do gospel e da música soul, bem depressa transcendeu géneros com o poder supremo da sua voz, capaz de colocar o virtuosismo ao serviço da emoção e da inovação, suscitando a admiração reverente do público e dos seus pares. Remnick cita Etta James para recordar um episódio eloquente relacionado com a forma como Aretha ao interpretar o tema Skylark subiu uma oitava na interpretação do segundo verso. Etta, que ficou estarrecida com tamanha proeza, narrou um encontro com a soberba Sarah Vaughan, que por sua vez, impressionada pela forma como Aretha pegou no tema, logo confidenciou que jamais o voltaria a cantar.

 

O evangelho segundo Aretha Franklin misturou o sagrado com o profano. A celebração do divino com a reivindicação de direitos na vida terrena. Combinou a generosidade e a solidariedade com toda a sorte de misfits com a exigência de respeito pela sua condição de mulher, artista, diva. Celebrou o amor e o prazer, exorcizou o desgosto e o infortúnio. Na formulação de Remnick, como “Ray Charles e Sam Cooke, Franklin combinou os assuntos do espírito com os do corpo.”

 

Parecia inevitável, embora dispensável, que também Donald Trump contribuísse com as suas pinceladas toscas e egocêntricas para o quadro da vida de um mito. Aludiu a um “legado extraordinário” da cantora que afirmou conhecer bem, mas só depois de referir: “Trabalhou para mim em inúmeras ocasiões.” Consta que a cantora também o conhecia bem, desprezaria aquilo que considerava que ele representava e terá recusado actuar na inauguração da sua presidência. O que só evidencia a sua coerência e a sua integridade. Algo que todos os que trabalharam com ela ou para ela sempre estiveram conscientes. E isto é parte relevante de um legado que nunca deixará de nos inspirar quando numa manhã de chuva um cansaço existencial nos deixar sem forças para enfrentar um novo dia.

 

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