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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O CONSUMO NOS TEMPOS DE CORONAVÍRUS

Março 15, 2020

J.J. Faria Santos

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Primeira paragem. Noto uma anormal abundância de lugares para estacionamento, que logo percebo dever-se à suspensão de uma feira que costuma realizar-se nas imediações. A minha satisfação acaba por esmorecer devido a uma circunstância incomum: uma fila de clientes com carros de compras vazios especados em frente da entrada. Faço inversão de marcha e dirijo-me para a saída, tomando o rumo de um estabelecimento da concorrência, que fica localizado a cerca de 2 km.

 

Segunda paragem. Verifico uma quantidade de carros superior ao habitual, mas em contrapartida não parece existir restrições à entrada. Entro com o carro de compras e noto de imediato que as pessoas aglomeradas na zona das caixas estão demasiado próximas. Tenho uma lista mental de produtos a adquirir. A ideia é circular pelos corredores e retirá-los dos expositores no mínimo de tempo possível. Há prateleiras vazias, mas nada de apocalíptico. Gel com lixívia, álcool, arroz, nem vê-los. Há alguma razia na zona dos enlatados. Estaciono, por fim, junto à caixa a uma distância razoável da cliente que me precede com um carro a abarrotar. Enquanto espero, observo casualmente o comportamento dos outros. Há uma idosa, numa outra caixa, que retira do bolso um lenço de papel amarrotado, que desembrulha e leva ao nariz, para de seguida o tornar a embrulhar e acondicionar no bolso. Fora do supermercado, na zona de shopping, relativamente isolado, está um pai extremoso que retira um bebé do carrinho e ergue-o no ar celebrando as alegrias da paternidade. A menina da minha caixa aproveita uma pausa para desinfectar as mãos. Na generalidade, as pessoas, conhecidas ou desconhecidas, conversam aparentemente sem grande apreensão e sem distanciamento profiláctico. Pago e saio. Durante o tempo que cá estive não me recordo de ter visto alguém a espirrar ou a tossir. Apenas uma pessoa circulava com uma máscara.

 

Terceira paragem. Regresso ao ponto inicial. Continuam os clientes em fila irregular com os seus carrinhos de compras vazios em frente à entrada. Junto-me a eles. Mais uma vez, conversa-se animadamente. Preservo uma distância que me aparece adequada da pessoa que está à minha frente; a jovem que está atrás de mim parece-me demasiado próxima. Reparo que um papel afixado indica o número de pessoas admitidas simultaneamente: 50. Saem duas, entram duas, e assim sucessivamente num movimento controlado pela autoridade serena do segurança enluvado. Espero pouco mais de cinco minutos e, quando entro, a sensação é de conforto e segurança, mesmo que ilusória. Movo-me num estabelecimento onde o espaço pessoal está preservado, sem aglomerados opressivos dos quais não nos conseguimos afastar. Abasteço-me de pão, queijo e fiambre fatiados e coelhos e ovos de Páscoa. Passo por algumas prateleiras desfalcadas (não muitas) e olho com desdém para o papel higiénico, que me recuso a adquirir num gesto que faço equivaler a uma afirmação de civismo e de rejeição de histeria comportamental. Há um homem que desrespeita flagrantemente a “etiqueta respiratória”, tossindo alarvemente para o ar, mas nessa altura já estou na lista de espera da caixa, cuja operadora usa luvas e sorriso. As únicas máscaras que por aqui se viram foram as da inconsciência, da simpatia, da resignação, da apreensão e da esperança. A vida continua num país em desaceleração com uma epidemia a galope. Protejamo-nos para podermos proteger os outros.

 

Imagem: Wikimedia Commons

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