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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O CHAMPANHE DELA DE CADA DIA

Abril 10, 2018

J.J. Faria Santos

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“O meu estado de normalidade é escrever. Para além disso, é uma adaptação às normas.” As normas que ditam o seu presente e o seu futuro foram estabelecidas em Setembro de 2006, após um AVC a ter remetido ao silêncio. Escrever, explicou ela, “é uma espécie de danação em que às vezes se tem um encontro com Deus.” Agora, enquanto negoceia com ele, com esse Deus de quem ela é um filha maior, bebe uma taça de champanhe ao almoço e ao jantar.

 

Em 2009 disse não temer a morte, por ser “profundamente crente num outro tempo, em que seremos puro espírito”. E, três anos depois, em entrevista a Fernando Dacosta, citou Madame de Maintenom que “dizia que o medo de morrer era-lhe superado pela curiosidade em relação àquilo que pudesse encontrar depois da morte”, para admitir partilhar dessa curiosidade. A escritora, aliás, considera que “a curiosidade leva-nos longe, é o princípio de todas a renovações”.

 

Agustina Bessa-Luís marcou gerações e acicatou ódios e paixões com o seu humor cortante, as suas opiniões desassombradas e os seus aforismos desconcertantes. Declarou não existir qualquer relação entre a atribuição de um prémio literário e o valor do escritor, mas confessou que houvera uma altura em que ambicionara ganhar o Nobel para, como Pearl S. Buck, dançar com o Rei. Afirmou ter recusado entrar na política por não o poder fazer pela “porta nobre”, que consistiria em “ser um primeiro-ministro, ser um tirano…uma Catarina da Rússia”. Admitiu não ser uma “escritora de uma longa meditação. Não faço um plano, não tenho notas”. Convivia bem com as suas próprias contradições. Talvez seja adequado citar Oscar Wilde: “As pessoas bem-educadas contradizem os outros. Os sábios contradizem-se a si mesmos.”

 

Quando lhe perguntaram se era a escrever que se sentia feliz, logo clarificou que o ofício do escritor não tinha nada a ver com a felicidade. “A felicidade é a consciência profunda de que se escapou de um perigo enorme”, proclamou. Será abusivo supor que no seu enigmático e intenso silêncio o seu champanhe de cada dia seja uma forma de celebrar ter escapado ao ano de todos os perigos? Ou, quem sabe, uma forma de aguardar serenamente a iminência indeterminada de um outro tempo, o tal em que será puro espírito.

 

Fontes: “Agustina íntima”, Expresso, 2018; Entrevista de Fernando Dacosta, Visão, 2002; Entrevista de Alexandra Lucas Coelho, Público, 1999.

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