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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O AMOR É DIFÍCIL (MESMO QUANDO SE VIVE PARA ELE)

Fevereiro 17, 2015

J.J. Faria Santos

Por que razão o amor tem dinâmicas que o tornam “difícil”? Bom, há a questão do timing, da disponibilidade, da simultaneidade dos interesses [It’s getting late for me / But it’s too early for you / I shouldn’t wait but / This one I’m not gonna lose” – tema You and I (Forever)]; há a ausência da verbalização, por cautela, receio ou indecisão ( Say you love me to my face / I need it more than your embrace – Say you love me); há também o momento potencialmente fatal em que o espectro da solidão é afastado pelo recurso à quota dos disponíveis (Do I get lonely at all? / No, ‘cause Jamie and Johnny and Jack keep me warm – Kind of…sometimes…maybe); e mesmo nos momentos de paixão consolidada ou apaziguada, é preciso evitar a armadilha da busca da perfeição ( Stop searching for perfect / Now, darling, you don’t have to try so hard – The way we are).

Jessie Ware, que se estreou com o elogiado e premiado Devotion, regressou no final de 2014 com TOUGH LOVE, uma colecção de temas que mantêm a fasquia alta, interpretados com a sobriedade e a elegância esperadas. Chamem-lhe electro-pop, R&B grooves com muito soul (Rolling Stone), ou retro-soul pop (The Guardian), Ware apresenta-nos um trabalho consistente e homogéneo, combinando o melhor da pop dos anos 80 do século passado com as mais sofisticadas sonoridades contemporâneas.

 

O amor é difícil porque, como escreveu Nietzsche, “o homem é o mais cruel dos animais”? É com esta frase que se inicia a citação do filósofo alemão que surge no final do teledisco do tema LIVING FOR LOVE, faixa de lançamento do novo álbum de Madonna. Poderíamos ser tentados a ver nesta aproximação a Nietzsche sinais da já vastamente glosada estratégia de provocação religiosa por parte da cantora. Quem melhor do que o homem que, ainda adolescente, escreveu “fiz de Deus o pai do mal”, postulou a morte desse Deus e classificou a moral do cristianismo como religião do ressentimento para o fazer? É mais provável que ela se sinta atraída pela noção de super-homem, facilmente transmutável em super-mulher.

Cruzando a estética tauromáquica com a mitologia grega, enquanto canta acerca da ascensão e queda da lide amorosa, Madonna entrega-se à faena dos minotauros e diz-nos, imune ao derrotismo, que vai continuar a viver para o amor. Talvez porque tendo encontrado liberdade na verdade nua e crua ( I found freedom in the ugly truth / I deserve the best and it’s not you) ache que essa veracidade a aproxima da plenitude do jogo amoroso, dos seus desafios e das suas sensações.

Por outro lado, não podemos descartar a hipótese de esta coreografia com os minotauros ser mais um pas-de-deux plural (colaboração, identificação) que um exercício de dominação à matador. É que o Minotauro original é produto da cópula da mulher de Minos, monarca de Creta, com um touro branco e, para sobreviver, precisava de devorar homens (e mulheres…). Não é Madonna vista, justa ou injustamente, como uma devoradora de homens? Nada como sublinhar as características que nos definem ou aproveitar artisticamente os rótulos que nos colam.

 

 

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