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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O AMIGO DE ALEX OU O PROCURADOR INGÉNUO

Março 20, 2018

J.J. Faria Santos

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É certo e sabido que Carlos Manuel Lopes Alexandre, “bilhete de identidade 5582428, cartão mecanográfico do Conselho Superior da Magistratura 1208”, celebrado juiz, não tem “amigos pródigos”, daqueles capazes de subsidiar estilos de vida sumptuosos com empréstimos avultados. A menos, claro, que se trate de Orlando Figueira, e a quantia em causa se cifre nuns modestos dez mil euros, E após muita insistência, aceitara porque constatara que o amigo subira na vida, renovara o guarda-roupa, comprara um carro e pusera o filho a estudar nos Estados Unidos.

 

Orlando Figueira, segundo o perspicaz juiz, é “muito crédulo com pessoas que não conhece, ele até tinha o petit nom de ‘ingénuo’”. De tal forma que teve de ser Carlos Alexandre a alertá-lo, quando soube do convite dos angolanos para o amigo trabalhar no departamento de compliance de um banco ou até numa empresa (as hipóteses variaram…), para a necessidade de sair dos processos que envolviam Angola. Mais: quando o descontraído procurador lhe disse que tinha assinado contrato com uma empresa, a Primagest, e iria receber dinheiro antecipadamente, teve de ser o juiz que não se verga ao dinheiro a explicar-lhe: “Não podes receber nada enquanto estiveres no público, isso é um absurdo.”

 

Nada que abale as convicções de Carlos Alexandre. Tirando o facto de Orlando Figueira receber os ordenados pagos pelos angolanos numa conta offshore em Andorra, manobra que permitiu a evasão fiscal. Figueira nunca lhe contara das viagens a Andorra para recolher os adiantamentos. Ingénuo, mas nem tanto. “Fiquei estupefacto”, confessou o juiz quando confrontado com estes factos. A tese do Ministério Público é a de que os empregos que justificam os rendimentos auferidos pelo ex-procurador eram um estratagema para ocultar as luvas pagas em troca do arquivamento da investigação a Manuel Vicente. Orlando Figueira contrapõe que quem lhe ofereceu emprego não foi Manuel Vicente mas sim o banqueiro angolano Carlos Silva. Os indícios podem ser significativos, mas como é evidente Figueira tem direito à presunção de inocência.

 

Não que precise de a invocar. “Testemunho do juiz Carlos Alexandre iliba arguido da Operação Fizz”, titulou o jornal Público em artigo sobre o caso na quarta-feira passada. Apetece perguntar quando é que o caso vai ser arquivado… “Esta pessoa que conheço há 27 anos não é compatível com o recebimento de contrapartidas”, declarou taxativamente o juiz, acrescentando que a corrupção “não está na matriz” de Orlando Figueira.

 

Miguel Sousa Tavares notou no seu artigo no Expresso que o juiz que deu provimento à tese do Ministério Público de que o ordenado que José Sócrates recebia da Octapharma era um esquema para ocultar rendimentos ilícitos é o mesmo que não estranha o adiantamento de um ano de salários atribuído ao seu amigo procurador. Carlos Alexandre testemunhou nunca ter encontrado um “traço na personalidade” de Orlando Figueira que pusesse em causa “a sua honradez e a sua confiabilidade”. Pode ser que Carlos Alexandre, além de arguto juiz, seja um perspicaz profiler, com vista privilegiada para os insondáveis desígnios da mente humana, capaz de destrinçar a verdade e a mentira sem se deixar condicionar pela amizade ou pela animosidade. Ou pode ser que nesta narrativa, afinal, o ingénuo seja outro.

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