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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

NOITES ESCALDANTES

Agosto 07, 2018

J.J. Faria Santos

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“Tentei dormir na banheira, quedar-me lá com água fria até ao pescoço”, explicou a rapariga a braços com um calor sufocante ao seu enlevado vizinho. Acontece que a torneira estava avariada e pingava perturbando-lhe o sono. Criatura engenhosa e de vastos e admiráveis recursos, logo tratou de enfiar o dedo grande do pé no gotejante orifício para suster o líquido. Seguiu-se um apreciável contratempo: o dedo ficou preso e teve que chamar o canalizador, que apesar de ser domingo foi muito compreensivo e apressou-se a comparecer no domicílio da dama em apuros. Confinada à banheira, esta ficou muito embaraçada porque um estranho ia vê-la sem as unhas pintadas. A rapariga é Marilyn Monroe no filme de 1955 O Pecado Mora ao Lado.

 

As noites escaldantes de Verão são propícias à desinibição. Os amores estivais, provavelmente, têm tanto de superficiais como de genuínos. Como canta Billy Idol em Hot in the City, nestas circunstâncias não há disfarces que ocultem a verdadeira natureza: “For all the dreams and schemes / People are as they seem / On a hot summer night”. Mas o excesso de calor pode constituir um problema.  Cole Porter descreve em Too Darn Hot os constrangimentos provocados pelas condições atmosféricas extremas na actividade amorosa, alegando que já o Relatório Kinsey tinha provado a preferência do homem comum por temperaturas mais baixas. Calor humano, sim, calor atmosférico, não exactamente.

 

Shakespeare escreveu numa das suas peças que com os sonhos de uma noite de Verão se levava a vida dormindo no Inverno. Mas fez questão de frisar que “o que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos”. As pessoas, que se querem para todas as estações, devem estar disponíveis para sonhar. É melhor correr o risco da ilusão, de uma vida no limiar do quase, que ser escravo de uma realidade supostamente imutável e tirânica.

 

Foto: Marilyn Monroe (Courtesy of Bert Christensen)

 

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