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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

NAÇÃO VALENTE COMEMORANDO

Maio 03, 2020

J.J. Faria Santos

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Cavaco terá recusado “pôr os pés na celebração do 25 de Abril por medo de contrair Geringonça-20”. Fake news, claro, mas bem inspirada esta revelação do satírico Inimigo Público. Já Ferro Rodrigues foi acusado por Miguel Sousa Tavares de ter uma “postura de caça-fascistas” e a reacção da “reacção” incluiu uma pungente indignação por não se poder celebrar a Páscoa e poder-se dar loas ao 25 de Abril. E, para cúmulo, o Presidente colou-se aos esquerdistas, carregando na oratória e pilhando os adjectivos dos adversários da celebração. Não comemorar o 25 de Abril, considerou Marcelo, “seria um absurdo cívico”, e “o que seria verdadeiramente incompreensível e vergonhoso era a Assembleia da República demitir-se de exercer todos os seus poderes”. (Quando ouviu a palavra “vergonhoso”, André Ventura, porventura pavlovianamente, quase irrompeu em aplauso frenético, mas felizmente, para ele, teve presença de espírito para se refrear e interiorizar que estava a ser censurado.)

 

Claro que o Presidente, com este discurso, e aqui acompanho a análise de Sousa Tavares, estava a tratar de consolidar a sua base de apoio à esquerda, que é compreensivelmente mais fluida e volátil, tendo em vista a campanha de reeleição. E tendo em conta o seu modus operandi, não tardará em dar alguma bicada no Governo para satisfazer a sua base de apoio natural. Apesar da motivação subjacente, confesso que me satisfez a clareza e a contundência do seu discurso. E diverti-me a imaginar que, algures no Portugal onde se “brinca aos pobrezinhos” e se exibem discreta ou exuberantemente os sinais de estatuto social, uma socialite indignada terá bradado, entre um gin tónico e uma busca infrutífera na mala Chanel, “O menino ouviu o que o tio Marcelo disse? Estou possessa! Então, ele agora junta-se à populaça para celebrar a perseguição e o exílio da elite empresarial e de quem defendia os nossos territórios ultramarinos? E os outros é que são populistas?”

 

Que nação seríamos se não tratássemos de preservar a memória dos grandes momentos transformadores? Sim, porque com a revolução de 1974 conquistámos direitos como os da liberdade de expressão, circulação e reunião. Vimo-nos livres da censura ilegítima e castradora e pudemos passar a eleger os nossos representantes em eleições livres. Os indignados profissionais das redes sociais, que desdenham da oportunidade ou da relevância de celebrar o 25 de Abril, avaliam devidamente a gravidade de viver num país onde, de cada vez que dirigissem as suas invectivas, muitas vezes falsas, injuriosas, ofensivas e mal-educadas, aos líderes da nação, se arriscassem a receber a visita da polícia política com o consequente interrogatório sem a observância dos direitos do detido?

 

Tudo isto é passado, dirão alguns, como se este fosse um país estrangeiro e não um embrião do que somos. Como se a nossa permanente reinvenção pudesse prescindir das lições do que fomos e do que nunca quisemos ser. Como se a democracia tivesse atingido uma espécie de imunidade de grupo e os seus inimigos tivessem desaparecido nas brumas da História. Nada mais falso. Comemoremos, pois, o 25 de Abril e o 1º de Maio. Em euforia ou em contenção. Em multidão aglomerada ou em versão reduzida com distanciamento pessoal. Celebrando o essencial, mas com o direito a discordar no acessório.

 

Citando Nuno Severiano Teixeira, em artigo no Público em meados de Fevereiro do ano passado: “(…) a democracia não é nunca um dado adquirido, mas antes uma conquista constante (…) primeiro, restringe-se uma liberdade, depois reduz-se a autonomia de um tribunal, no dia seguinte compra-se um jornal incómodo que fecha, supostamente, por razões financeiras. Claro que não se trata de política, é só e apenas a lei e o mercado a funcionar. Em suma, as democracias já não morrem pelo método violento do derrube, mas sim pelo método incremental da erosão. Usando os mecanismos do regime democrático para subverter a própria democracia.” Preservar os rituais solenes é uma das formas de alertar para a necessidade de alimentar e rejuvenescer os mecanismos da democracia. Doutra forma, quando acordarmos para uma realidade indesejada, a contenção já não funcionará e a fase de mitigação poderá ser insuficiente para que seja possível a recuperação.

 

Imagem: pormenor de cartaz de Vieira da Silva

 

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