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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

MÁRIO SOARES CONJUGAVA OS VERBOS NO FUTURO

Dezembro 07, 2024

J.J. Faria Santos

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Que escrever, como nomear aquele que parece ter sido destinado à grandeza? Como evocar com justiça e justeza aquele que apenas conhecemos através da mediação de um ecrã ou do testemunho da sua acção pública enquanto cumpridor leal das funções que lhe foram confiadas pelo sufrágio dos portugueses? Para aliviar o fardo de uma tarefa que estará sempre destinada a uma qualquer forma de “inconseguimento”, nada como citar as palavras do objecto da nossa admiração, que com uma certa nonchalance declarou a Maria João Avillez: “Nunca me tomei excessivamente a sério, querida Amiga. Só o suficiente, desde que não fosse incompatível com o sentido de humor. De resto, não estou muito preocupado com o juízo da História.”

 

Mário Soares, cujo centenário do nascimento se assinala, era uma dessas figuras larger than life, que sempre teve para Portugal aquilo que falta aos líderes políticos contemporâneos: um desígnio, um propósito mobilizador que orientava toda a sua acção política, e que passava pela conquista e consolidação da democracia e pela integração europeia. Para tal, não hesitou em fazer rupturas nem renunciou ao consenso, foi implacável para com os adversários sem dispensar a magnanimidade, foi leal para com os correligionários sem dispensar o dissenso. Foi sempre capaz de distinguir o essencial do acessório e de encarar o desfecho de qualquer combate eleitoral como uma celebração da democracia, em que uma vitória não era uma carta branca para uma espécie de totalitarismo do ganhador e uma derrota não significava o opróbrio e a menorização do vencido (que só o era se desistisse de lutar).

 

Amante das artes, bibliófilo com uma “visão literária da vida”, estadista, “curioso e enamorado da vida e das pessoas”, culto e cosmopolita, à vontade entre as peixeiras da Nazaré como nos salões da alta-roda, colérico ou bonacheirão, corajoso e desafiador, erigiu como modo de acção primordial o uso da palavra, de viva voz ou na escrita, desdenhando o calculismo temeroso da gestão do silêncio. Havia no seu modo de fazer política um travo lúdico, que não colidia com o sentido de dever e a responsabilidade, que o afastava do irritante clamor dos que praticavam a arte de governar como se esta fosse um sacrifício a um deus maior, por causa da qual coleccionavam abstinências e recusavam qualquer forma de prazer. E os verbos que definiram as suas acções foram sempre conjugados no futuro. O presente era premente mas insuficiente.

 

Especulando acerca do seu eventual lugar na História, Soares declarou: “Bati-me por aumentar o prestígio de Portugal no Mundo, procurando criar as condições de base no domínio das infra-estruturas e das pessoas, para se poder encarar com alguma tranquilidade o futuro. Em política, nunca busquei satisfazer interesses pessoais. Trabalhei em favor dos meus compatriotas, nomeadamente os mais pobres, os marginalizados, os doentes e os jovens, estes como principal penhor do futuro. Se a História viesse a dizer isto, ficaria muito contente! Que mais poderia desejar?”

 

Citações de Mário Soares retiradas de Soares, o Presidente de Maria João Avillez

Imagem: cpf.org.pt

 

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