MANUEL, ANDRÉ, JOACINE
Novembro 12, 2019
J.J. Faria Santos

Saudoso do esplendor perdido de Portugal, o jovem Manuel Bourbon Ribeiro escreveu, via Observador, uma carta em tom lamentoso ao seu “querido” país, a quem ora pede que ajude a sua geração a ter uma “educação que (…) permita sonhar”, ora censura por “cortar as pernas à iniciativa privada”, a quem sobrecarrega de impostos. Com o voluntarismo e as certezas inabaláveis dos seus ternos 17 anos, o Manuel enumera na sua missiva todo um programa ideológico conservador nos costumes – deplora que o seu “querido” país promova “a ausência de diferenças entre raparigas e rapazes”, “acabe” com a vida dos doentes terminais e não defenda a vida humana. Infelizmente, o facto de ser estudante de Direito não evitou que resvalasse para o populismo mais básico e a generalização mais abusiva, quando afirmou que “hoje quem governa, ou suborna ou vai para a prisão”. Nem o inibiu de cometer o erro crasso de considerar que o seu “querido” Portugal não fez “a vontade ao povo”, porque “quem governou durante 4 anos nem sequer ganhou as eleições”. Saúde-se a vontade de intervenção cívica numa epístola claramente condicionada por uma visão parcelar e pouco maturada de um país que já não é “tão grande como outrora”. Tanto apego ao passado em quem tem tanta sede de futuro. E que diria ele se o país não lhe fosse tão “querido”?
Um notável trabalho jornalístico de Fernanda Câncio para o Diário de Notícias permitiu expor as contradições flagrantes entre a tese de doutoramento de André Ventura e o seu discurso político. No trabalho académico, por exemplo, Ventura censurou a estigmatização dos muçulmanos quando são “associados de modo superficial ao terrorismo”, considerou Portugal “um dos países mais pacíficos do mundo” e criticou os políticos que “se aproveitam (…) da generalizada vontade de punição do público”. Confrontado pela jornalista, Ventura defendeu o facto do programa do Chega aludir à “insegurança crónica” de Portugal como sendo uma “percepção” que ele e os cidadãos têm. Portanto, os dados dos relatórios fariam parte da “análise científica”, sendo que ao líder político parece competir reforçar estereótipos e percepções erróneas. O mais irónico é que Ventura cai involuntariamente no auto-retrato quando afirma a Câncio que “um populista é alguém que usa de forma abusiva os anseios de uma população para manipular as suas aspirações e para conseguir triunfar”. O que noutras circunstâncias seria mais do que suficiente para descredibilizar um político é, neste caso, perfeitamente irrelevante. O seu nicho de eleitorado, o seu núcleo duro, vai continuar a aplaudir as suas vociferações. Já será bom se o debate político e trabalhos jornalísticos como o de Câncio servirem para conter o populista demagogo, para o remeter à condição de ídolo dos profissionais da indignação e dos que privilegiam a reacção à reflexão.
A “indústria” das petições é algo que me diverte, quando não me repugna. Que mais de 22 000 pessoas tenham apoiado e assinado uma petição a favor do “Impedimento de tomada de posse da Impatriota Joacine Katar Moreira”, a pretexto de uma fundamentação absurda e disparatada, é surpreendente e lamentável. Como o é que as pessoas dediquem a sua energia a manifestações de ódio irracional. A deputada do Livre vem acrescentar representatividade e diversidade ao Parlamento Português e é salutar que apresente e defenda as suas causas. Do mesmo modo, é expectável que seja confrontada com as suas ideias e as do partido que representa. A campanha de desinformação de que foi alvo poderá ter como consequência uma reacção mais epidérmica e menos ponderada à crítica legítima. É por isso que a maneira como Joacine encarou as críticas de Daniel Oliveira (que entre outras coisas censurou a conversão do Livre à “agenda identitária”) não foi particularmente feliz. E a forma como admoestou a jornalista que a entrevistou para o Expresso, e que a inquiriu se não teria exagerado ao associar Oliveira à direita e à extrema-direita (“Ainda vai insistir nisto? Não me irrite, a sério. Não insista.”), mostra melindre em vez de disponibilidade para o debate. Melhor seria que reservasse a animosidade e a acutilância para os desqualificados que brandiram contra ela a arma da mentira e para os adversários políticos, em vez de se barricar no ressentimento contra quem, como Daniel Oliveira, não deixou de salientar que ela foi “atacada de forma abjecta”.