NO VAGAR DA PENUMBRA
27 de Março de 2018

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“Marcelo sempre achou Rio rígido, autoritário e inflexível, e Rio sempre achou Marcelo disperso, a falar demais e pouco confiável”, informou-nos o Expresso em finais de Fevereiro. Não sei se é o jornal que vai à fonte, se é a fonte que vai ao jornal. Sei que o Presidente disse que a única fonte oficial de Belém é ele próprio. Está tudo dito. O título da notícia era: “Marcelo e Rio: da velha zanga à meta comum”. E qual é essa meta? “Evitar a maioria absoluta do PS”, diz o Expresso. Nesta altura, o Presidente ainda se congratulava com a “entrada em cena de Rui Rio”. E preconizava entendimentos entre Rio e Costa? Sim…e não. É que, explica o Expresso, o Presidente acha que Costa tem “habilidade para gerir os outros em proveito próprio”. Portanto, entendimentos sim, mas nada de duradouro. Titulava o jornal que “o PR não patrocina nem confia na dança PSD/PS”. Ele aprecia mais a marrabenta.

 

Passados quinze dias a meta comum parecia mais afastada. O jornal noticiava que o PR dava “um prazo a Rio”. Uma nova variante do líder a prazo sob a tutela do Presidente da República. Marcelo não aprecia o “tempo lento” de Rio, tão antagónico do seu proverbial frenesim. E se até ao Verão o PSD não se afirmar nas sondagens e Costa puder sonhar com a maioria absoluta, o PR, sustenta o semanário, “admite ter de entrar mais em cena [ainda mais?] e voltar a chamar a si momentos de alerta para o que corre pior no país [que pena… logo ele que gosta tanto de dizer que somos os melhores…] acentuando a demarcação do Governo”. A ideia seria fazer uma espécie de Presidências Abertas para “expor fragilidades sectoriais”. Mas Presidências Abertas não será o que Marcelo faz todas as semanas com as notícias colocadas no Expresso? E como na mesma notícia em que uma fonte faz questão de dizer, referindo-se ao Presidente, que “se Rio não for suficientemente a jogo preenchendo os vazios de oposição, terá de ir ele”, se releva que o “PR não se vai meter em domínios que não são os seus”, nós, comuns mortais, não podemos deixar de nos interrogar se do alto da sua lendária inteligência o professor não estará a tentar fazer passar-nos por parvos.

 

Agora, Marcelo teme o atraso das medidas de combate aos fogos. E também as “medidas provisórias”. Dito assim, é o testemunho inequívoco do grau de exigência do PR. Se se planeiam medidas a longo prazo, não se acautela o futuro imediato; se se introduzem alterações rapidamente, ou são mal pensadas ou provisórias. Compreende-se. Rápido e bem, só o genial Marcelo. No meio do fluxo torrencial de declarações, de análises sui generis às entrevistas do primeiro-ministro (o Presidente achará que a entrevista de Costa à revista Cristina significará que o PM estará a apostar num perfil popular para tentar chegar à maioria absoluta), e das cogitações políticas sobre as consequências das tragédias (dirigentes partidários que tiveram audiências em Belém disseram que se houver uma nova tragédia com fogos o Presidente entenderia que não podia segurar o Governo), é difícil perceber o grau de importância que ele atribui ao sacrossanto interesse nacional. A menos, claro, que a sua visão dinâmica da conjuntura política coincida ao milímetro com o interesse nacional, de forma objectiva, geral e abstracta.

 

Em finais de Janeiro, José Pacheco Pereira notou no Público que “o Presidente faz um contínuo metadiscurso sobre tudo o que acontece (…) e esse mesmo metadiscurso aparece agora como um conjunto de prevenções, de sinais, de avisos que, não sendo novo no discurso dos anteriores presidentes, no caso de Marcelo ganha outra amplitude, porque vem mais em continuidade do que foi o seu discurso de comentador de décadas conhecido pelo seu cinismo, a propensão para a intriga e mesmo ajustes de contas nas antipatias próprias”. E concluía afirmando que em tempos de proliferação de populismos, “temos um presidente que não se coíbe de usar as armas dos políticos populistas modernos”.

 

E temos também um Presidente que contrasta com o seu antecessor pelo sentido de humor. Desta vez, em pleno Jerónimos, ele decidiu exercitar o seu humor negro teorizando sobre o impacto de uma tragédia que ali ocorresse em plena cimeira de autarcas. Não, não se tratava de um incêndio. Uma piada desse teor implicaria a sua imediata exclusão do grupo de amigos de Nádia Piazza e a impossibilidade de um convite em plena quadra natalícia. Marcelo, em registo stand-up comedy, atirou: “Já pensaram? Uma bomba aqui era uma crise nas áreas metropolitanas. A única vantagem é que libertavam o Presidente. Já viram o funeral que era? De urnas em fila. Os Jerónimos não tinham capacidade. Havia um problema de mobilidade… Como é que era possível a saída?”

 

Se há coisa que nós sabemos é que ele não pretende sair, nem ser libertado. E que tem um capital político que reuniu graças à habilidade com que utiliza em proveito próprio o afecto que espalha. Um imperativo de consciência empurra-o para um segundo mandato. O interesse nacional unge-o. O desafio é irrecusável. Nem que Cristo desça à Terra.

 

Imagem: caras.sapo.pt

publicado por J.J. Faria Santos às 20:18 link do post
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