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NO VAGAR DA PENUMBRA

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FRAGMENTOS DO NATAL

Dezembro 19, 2017

J.J. Faria Santos

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Numa das suas crónicas do século passado, António Lobo Antunes rememora os Natais passados com o avô oficial de Cavalaria. Quando o avô morreu, “a família dispersou-se e os Natais acabaram”. O escritor associa a quadra a uma infância feliz no seio de uma família alargada. Num curto e impressivo relato, descreve um cenário que inclui “velhinhas que cheiravam a remédios”, “tias poeirentas do Brasil” e a criadagem alinhada para receber os presentes, entregues pela avó “numa pompa de condecorações do 10 de Junho”. Lobo Antunes apresenta um “avô de boquilha [que] presidia à confusão com um sorriso”. E em que poderia consistir a “confusão”? “Bolas que partiam vidros e terrinas”, “automóveis de corda que se alguém punha um pé em cima dava um mortal para trás” e ruidosos “revólveres de fulminantes” que “perturbavam a canasta”. Mas não perturbavam o avô, símbolo máximo de amor, benevolência e protecção.

 

“A crowded room / Friends with tired eyes”, cantam os Wham na omnipresente Last Christmas. Há um momento, há sempre um momento nas noites de Natal, por mais breve que seja, em que a melancolia se revela e mesmo numa sala repleta se instala o olhar cansado. Pode ser o efeito da maratona de iguarias ou da generosa ingestão de bebidas espirituosas. Ou um embevecimento entorpecido pelo calor das chamas da lareira ou do aquecimento central num ambiente de algazarra infantil e não só. Pode ser um simples cansaço físico generosamente acolhido pelo sofá. Ou a nostalgia despertada pelos ausentes. Mas também pode ser um momento em que se antecipa o fim de festa, como se o culminar de uma gloriosa cavalgada de preparação dessa festa e da escolha dos presentes, como se um tremendo investimento emocional, de repente desse origem a uma sensação de insuficiência, de frustração de expectativas. Perdemos demasiado tempo numa encenação fervorosa do júbilo quando ele se revela em todo o seu esplendor nos pequenos gesto de afecto que na maior parte das vezes dispensam até a palavra como laçarote.

 

Nem todos os homens à beira do abismo têm a sorte de serem sustidos pela intervenção de um anjo, como sucede com George Bailey (interpretado por James Stewart) em Do Céu Caiu Uma Estrela. O anjo Clarence mostra-lhe que a vida de um homem toca a vida de muitas pessoas e que o seu desaparecimento deixa um tremendo vazio. Seguramente um vazio maior que aquele que em momentos de desespero assola a consciência de um homem derrotado. Se não tivermos a resistência para afastar os pensamentos negros em momentos de derrocada emocional, ao menos que tenhamos a sorte de ter um anjo terreno para nos dar a mão. O Natal é também, ou é sobretudo, isto.

 

Crónica de Natal in Livro de Crónicas de António Lobo Antunes, Publicações Dom Quixote

Last Christmas composta por George Michael

Do Céu Caiu Uma Estrela (It's a Wonderful life) é um filme de 1946 realizado por Frank Capra

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