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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

EVANGELHO DE MARCELO, O PIO, SEGUNDO ÂNGELA SILVA

Junho 01, 2024

J.J. Faria Santos

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Os evangelhos são um género literário que não se deve confundir com a biografia, nem com o relato jornalístico comprometido com a verosimilhança ou a fidelidade aos factos. São compostos por narrativas e testemunhos ao serviço do proselitismo. O tema de capa da revista do Expresso, que para uns é uma desajustada crónica sentimental e para outros um imprescindível retrato da solidão do poder, é, justamente, uma espécie de evangelho de Marcelo, o Pio, segundo Ângela Silva.

 

O retrato que emerge é o de um homem “atormentado pelo gozo e pela culpa”, que “tem muita noção quando peca, fica muito aflito e sofre com isso”. Como todos os santos, tem ou teve uma relação intensa com o pecado. Que ele vai a caminho da canonização, não parecem restar dúvidas: “vai vezes sem conta visitar pobres e doentes” e desenvolveu “um dom notável para falar com pessoas à beira da morte” (embora eu achasse mais relevante se ele tivesse desenvolvido um dom para falar com as pessoas depois da morte), “senta-se ao lado dos sem-abrigo na rua a comer papos-secos e leva sempre no bolso notas de cinco e 10 euros para distribuir por quem precisa”, é “desprovido de interesses materiais”, reza a toda a hora, inclusivamente a nadar e no trânsito, e “chega a ir a Fátima de 15 em 15 dias”.

 

Cultor de uma religiosidade tradicional e popular, só lhe falta alinhar com André Ventura no uso do cilício. Por agora, fica-se pelas paredes forradas  com “pagelas de santos com orações e promessas” e pelas expedições à Capelinha das Aparições. O retrato da solidão do poder, com referências à religiosidade, ao alívio da pobreza com recurso à esmola e à noção de que a indissolubilidade do matrimónio católico condena à castidade as novas relações, aproximam-no do conservadorismo e da mitologia de uma outra figura que exerceu o poder em Portugal. Marcelo angustia-se com o receio de falhar, “a sensação de permanentemente se ficar aquém”. Como o poeta Sá-Carneiro, poderia dizer: “Num ímpeto difuso de quebranto, / Tudo encetei e nada possuí…”

 

Parece evidente que o timing deste perfil, a sua natureza de radiografia privada e mesmo íntima, fica muito a dever ao facto explicitado na própria peça de a sua popularidade ter entrado em “terreno negativo”. Ora estando em causa um profundo conhecedor dos mecanismos de funcionamento dos meios de comunicação social, por um lado, e uma jornalista com um nível de cumplicidade e até admiração pelo Presidente, por outro, pode levantar-se a questão, não pondo em causa o profissionalismo daquela, se não estaremos perante uma espécie de artigo algures entre o relato em nome próprio em registo ghost writer e o perfil biográfico autorizado com recurso a testemunhos dos “amigos mais próximos”. Estaria em causa um benefício mútuo sem erros de percepção: a jornalista construiria um valioso perfil íntimo do Presidente e este, para tentar contrariar a derrapagem nos afectos dos portugueses, ver-se-ia retratado na peça como um homem de fé, preocupado com os pobres e os doentes, numa narrativa capaz de inverter o precipício da sua popularidade.

 

Se me é permitido oferecer um modesto conselho a quem pondera mais acerca da indissolubilidade do casamento do que sobre a dissolução de governos em funções, um voto de silêncio talvez fosse mais útil. Para quem tanto procura a assimilação com o povo, nada como meditar na sabedoria dos provérbios populares: quem não aparece, esquece; mas quem muito aparece, tanto lembra que aborrece.

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