ESTADO DE CHOQUE
Março 16, 2025
J.J. Faria Santos

O PSD está em estado de choque. Os sintomas de um choque traumático incluem sentimentos de ansiedade, desespero, raiva e irritabilidade, bem como alterações cognitivas que afectam a capacidade de concentração e o raciocínio lógico, não sendo de excluir as manifestações de paranóia, com a concomitante interpretação distorcida da realidade ou o delírio persecutório.
Manuela Ferreira Leite foi ao conselho nacional do partido asseverar, a propósito das polémicas que têm envolvido o primeiro-ministro, que nunca tinha visto “nada tão baixo na política portuguesa”. E acrescentou: “Isto é o caminho certo para a ditadura, é o contrário da democracia.” Claro que, tratando-se da ilustre militante que em tempos aventou se não seria “bom” haver “seis meses sem democracia”, ficámos sem perceber se teme pela democracia ou se se tratou de mais um assomo de ironia pouco fina.
Por outro lado, um seu ilustre par (que é PAR), terá vociferado que “Pedro Nuno Santos fez pior à democracia em seis dias do que André Ventura em seis anos”. Pode Aguiar-Branco afirmar esta barbaridade no uso pleno da sua “liberdade de expressão”? Na minha opinião, pode. Mas não devia. Como ele é um homem do Norte, ocorre-me logo à memória um sketch do Herman Enciclopédia, onde havia sempre alguém a implorar perante um ilustre de cabeça perdida: “Oh senhor engenheiro, não se desgrace!” A afirmação de Aguiar-Branco foi proferida à porta fechada, mas como se encontra transcrita numa “notícia” no site do PSD, isto só pode significar que o partido assumiu quê está numa relação com a desorientação e com a hipérbole destrambelhada.
O jovem prodígio Bugalho terá dito, com uma originalidade fulgurante, que o PS é um “Chega de esquerda”, que protagonizou um “assalto institucional”. E, na mesma linha, Luís Campos Ferreira acusou o PS de ser “a corista ordinária do Chega”. Para o secretário-geral socialista, Hugo Carneiro reservou o epíteto de “charlatão”, ao passo que Emídio Guerreiro, fazendo jus ao nome, terá sido, segundo o Expresso, “particularmente duro”, acusando Pedro Nuno Santos de ser um “menino do papá” (como é que ele recuperará deste golpe?) e viver “da mesada do papá” (com sorte ainda obtém a simpatia e os votos dos pais que vivem em economia comum com filhos sem condições económicas para se emanciparem…)
No final da reunião, Luís Montenegro declarou-se confiante, como “já estava”. Tempos houve em que o partido teve um líder que prescreveu um “banho de ética”. Agora(quase) todos defendem que não convém deitar fora o poder com a água do banho. Montenegro será um trunfo. O Governo satisfez as corporações com o excedente herdado e a barreira de propaganda procura sustentar o mantra do “governo em movimento”. É certo que há cada vez mais brechas no comentariado de direita, que o vê como um activo tóxico, mas prognósticos só no fim do jogo.
Imagem: www.psd.pt