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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

E O ÓSCAR VAI PARA...WILDE!

Março 05, 2018

J.J. Faria Santos

Oscar_Wilde_by_W._and_D._Downey.jpg

 

A acção decorre entre o final do século XIX e o início do século XX. Tem um protagonista larger than life, genial e repentista, desafiador e espirituoso. A acção decorre entre os salões dos afluentes e o bas-fond onde se satisfazem os desejos inconfessáveis. Há cenas de tribunal e atrás das grades. E um drama familiar espoletado por um amor proibido e que envolve uma esposa negligenciada e um pai impedido de ver os filhos. E ainda um mau da fita, um rapaz mimado e petulante, cujo comportamento talvez possa ser redimido pela genuinidade dos seus sentimentos.

 

A vida de Oscar Wilde tanto dava um filme que até já deu vários. E incontáveis livros. Um dos mais recentes, Oscar Wilde: The Unrepentant Years de Nicholas Frankel, é o pretexto para John Banville desenvolver na New York Review of Books a sua tese de que o irlandês não terá produzido obra à altura do seu talento, considerando que “a essência da arte” de Wilde residia na forma como ele captava o espírito da época e o traduzia em elegantes aforismos. Embora atribuindo o estatuto de obra-prima às peças A Importância de Ser Earnest e Um Marido Ideal, e destacando De Profundis e a Balada do Cárcere de Reading, é o prefácio de O Retrato de Dorian Gray e o ensaio O Declínio da Mentira que Banville coloca nos píncaros. Sim, as peças são notáveis mas não espelham completamente o seu talento, diz ele, reduzindo-as a uma colecção de figuras unidimensionais, sem espessura, debitando tiradas de indesmentível brilhantismo.

 

Por mais defensável que a tese de Banville seja, prefiro suspeitar que por detrás dela está a velha dicotomia entre alta e baixa cultura, entendidas como categorias separadas e insusceptíveis de indesejáveis contaminações. Wilde teria falhado a construção de uma obra à altura do cânone da academia em favor de uma colecção de soundbites geniais. Como se a profusão de talento, em desordem ou atropelo, impedisse a sistematização e a maturação de um corpo de obra mais consistente. Como se a leviandade ou impulsividade do seu comportamento tivesse reflexo na sua produção literária.

 

Banville cita um observador que diz que Oscar Wilde “se desperdiçou em palavras”. Ou desperdiçou palavras. Um literato metódico e circunspecto, religiosamente empenhado em erigir uma obra monumental e erudita, supõe-se, recorreria ao comedimento para não correr o risco de ser acusado de superficialidade, ou de incapacidade de enquadrar a abundância de recursos. Na verdade, tal cálculo seria impensável da parte de quem escreveu que não existe “nada mais fatal para a personalidade do que a circunspecção”.

 

Imagem: Foto de W. e D. Downey (Wikimedia Commons)

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