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NO VAGAR DA PENUMBRA

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É NATAL E HÁ QUEM LEVE A MAL

Dezembro 24, 2025

J.J. Faria Santos

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É Natal e há quem leve a mal. Isabela Figueiredo (de quem li o corajoso e incontornável Caderno de Memórias Coloniais) é uma dessas pessoas. Em crónica no jornal Expresso, deplorou “a mesma música todos os anos”, a “muita alegria e muito amor irreais” nos programas de televisão e na publicidade, as oportunidades que a quadra proporciona para “consumir irracionalmente” e o “ambiente de Natal tradicional, “penoso” para os solitários que, mesmo que participem nas celebrações dos amigos, sentir-se-ão sempre como se estivessem no “mundo dos outros (…) de passagem e por piedade”. No “mês mais triste do ano”, confessa ela, só escapa a “lareira acesa”, com “as suas chamas coloridas e o calor que se espalha pela casa”.

 

Contrariamente à cronista, sou um fã dos rituais da época. Não consigo escapar ao apelo dos hits natalícios (o veludo na voz de Nat King Cole em The Christmas Song ou a surpreendente sobriedade da versão de Blue Christmas  de Céline Dion, com Diana Krall ao piano, já para não falar do  meu favorito, Have Yourself a Merry Little Christmas, do qual me entretenho a procurar novas versões no YouTube). E dificilmente resistirei a ver de novo, mesmo que seja de forma pouco atenta, o filme O Amor Acontece, que não se esquiva a satirizar o “Natal tradicional” e onde a alegria pode ser “muita” mas nunca se insinua que será perpétua, e o amor mais do que “irreal” é apresentado como fruto de um trabalho por vezes árduo ou da capacidade de esquecer, não descartando a hipótese de estar condenado ao unilateralismo.

 

Se Isabela Figueiredo questiona “árvore de Natal e luzinhas para quê ou quem”, eu respondo: para meu deleite. A tradição instituída por mim é a de que todos os anos adquiro um novo enfeite para juntar aos que transitaram da época anterior. Os enfeites são, com raríssimas excepções, de cor vermelha ou amarela. Dada a heterogeneidade das peças, a sua colocação na árvore obedece a uma certa harmonia cromática horizontal ou vertical, pondo as peças douradas em cima e as vermelhas em baixo ou, em alternativa, umas mais à esquerda e outras mais à direita. Anjos, Pais Natais, sinos, renas, candelabros, imitações de bonecos de neve ou de ramos de azevinho espalham-se por diversas divisões da casa. Decorar a casa no Natal não é para mim uma imposição comercial, uma pressão familiar ou social ou uma competição com a vizinhança. E uma questão de prazer pessoal, sem concessões à extravagância ou preocupação com modas.

 

Entendo mal que Isabela Figueiredo ache que “para quem tem pouca família e não encontra forma de criar um ambiente de Natal tradicional, tudo é penoso”. É que o Natal tradicional é como a família tradicional: é mutante e está em evolução. E não vejo mal nisso. Nem compreendo por que razão uma noite de consoada como será previsivelmente a minha, com menos pessoas que os dedos de uma mão, não se enquadre no conceito de Natal tradicional, mesmo se, para mim, a palavra Natal dispensa o adjectivo.

 

Por outro lado, percebo as suas considerações acerca dos solitários, de quem não tem família ou dela se afastou e da sua difícil inserção no “mundo dos outros”. Mas não posso deixar de notar que a piedade é compaixão e que esta pode ser definida como “um impulso altruísta e solidário para com quem sofre” (Dicionário online Infopédia). Existirá algo mais natalício? E mesmo que o “solitário” se sinta “de passagem” e sem pertença, não precisamos todos do conforto dos “estranhos” (da “gentileza dos estranhos”) nos intervalos das nossas estadas nas células mais estáveis da sociedade? E gosto de pensar que, em última análise, Natal é sobretudo ser capaz de tornar nosso o mundo dos outros e deixar que os outros se aventurem pelo nosso.

 

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