Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE NOVA DIREITA

Fevereiro 03, 2020

J.J. Faria Santos

ft_blog_cds.jpg

Laborando na ilusão, gerada pelo senso comum, de que a direita é apreciadora de líderes fortes e carismáticos, com elevado grau de conhecimento das organizações que dirigem, habituados a reger a congregação de correligionários no sentido da unidade programática, sem desvios no guião, anarquia na acção ou protagonismos espúrios, eis que sou confrontado com a confrangedora fraqueza do impante e bem-falante André Ventura. Confrontado pelo Público com o facto de um dos participantes de um comício do Chega ter feito a saudação nazi na sua direcção, disse “lamentar profundamente o incidente”, mas alegou ser “impossível controlar” o comportamento de “centenas de pessoas”. Questionado pelo Polígrafo acerca da presença nos órgãos do Chega de ex-membros de grupos neonazis, o assertivo e articulado Ventura afirmou ter “tolerância zero relativamente a pessoas que tenham pertencido a grupos neonazis”, acrescentando ter mandado investigar os casos denunciados e prometendo agir em conformidade. Em suma: Ventura quer que acreditemos que desconhece o carácter da companhia que frequenta. Mesmo que assim fosse (demos-lhe o benefício da dúvida que ele não merece), nem por um momento se terá interrogado acerca do que é que no seu discurso político (básico, primário, incendiário, inexacto, enganador) atrairia como espectadores indivíduos em relação aos quais ele afirma ter tolerância zero? Maquiavel estava certo quando afirmou que “nenhum indício melhor se pode ter a respeito de um homem do que a companhia que frequenta”.


Francisco Rodrigues dos Santos chegou com estrondo à liderança do CDS, apostado em fazê-lo renascer sob a forma de um “partido sexy” com “estratégias de comunicação acutilantes, disruptivas e actuais” (tradução – utilizar as redes sociais como ponta de lança da agenda conservadora, assente numa espécie de guerra cultural contra a “ideologia de género” e aquilo que ele percepciona como a hegemonia cultural da esquerda e o laicismo que agride “os valores da tradição judaico-cristã”). Mas, para já, tratou de suavizar a sua oposição à interrupção voluntária da gravidez, à eutanásia ou ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não sabemos se ainda defende a educação para a abstinência sexual, mas, por outro lado, sabemos a companhia que frequenta. Abel Matos Santos é agora vice-presidente do CDS e o Expresso deu-nos uma amostra do seu pensamento. O diplomata Aristides Sousa Mendes foi um “agiota dos judeus”, escreveu Matos Santos no Facebook. “Viva Salazar! E ele vive mesmo! (…) Foi sem dúvida alguma um dos maiores e melhores portugueses de sempre!”, exultou ele em 2015. Já a PIDE, foi “uma das melhores polícias do mundo” que só incomodava os “comunistas” e quem atentava “contra a segurança do Estado”. “E muito bem”, acrescentava, apoiando a sua acção e os seus métodos (“Quais torturas?”, questionou pondo em causa a acção dos torcionários). A 25 de Abril de 2016, apodou a efeméride de “dia da lavagem cerebral” e considerou que quem o celebra são os que comemoram “a liberdade de abortar, de mudar de sexo de manhã e à tarde, de usar crianças de modo egoísta para satisfação de ideologias e projectos pessoais”. Acredito que esta última frase tenha uma “ressonância de verdade” para Francisco Rodrigues do Santos. E que a contundência e o desassombro o atraiam. O radicalismo camuflado excita-se com a verve inflamada dos fiéis de sempre, e ainda mais com a dos recém-convertidos. Diz que é uma espécie de nova direita. Com tanto apego ao passado (e a um passado pouco recomendável) pode almejar representar o futuro?

 

Imagem: Ilustração de Cristina Sampaio para o jornal Público

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D