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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

DA GERINGONÇA À SANTA(NA) ALIANÇA

Fevereiro 19, 2019

J.J. Faria Santos

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O tempo político acelera. Multiplicam-se as perplexidades. Desafiam-se ideias feitas, reconstroem-se perfis, deslocam-se as peças no tabuleiro de xadrez. 112 pré-avisos de greve foram entregues desde 1 de Janeiro, uma enormidade face aos 260 do ano transacto e às 85 greves sectoriais registadas em 2015. Mas, afinal, não foi este Governo que reverteu diversos direitos perdidos durante o consulado de Passos, e não tem ele o respaldo dos partidos de esquerda, o que supostamente corresponderia a um apaziguamento da conflitualidade social? O problema, explica Assunção Cristas ao Expresso, é que “isto está pior do que no tempo da troika”, designadamente na Saúde. E, no entanto, em 2018, o SNS contou com mais 601 médicos e 1252 enfermeiros, e o número de consultas aumentou, quer nos centros de saúde quer nas urgências hospitalares, apenas se registando um ligeiro decréscimo nas cirurgias.

 

A política é também a arte de gerir as expectativas, influenciar as perspectivas e alimentar as percepções. Os efeitos positivos de indicadores como o do défice ou da taxa de desemprego (um indicador de bem-estar social por excelência) não têm equivalência no comportamento do investimento público, aspecto que é estrategicamente relevado pela oposição (mesma a de direita, que tem tendência a desvalorizá-lo). A mera suspeita de que o travão no investimento possa ter reflexo na qualidade dos serviços públicos, contribuindo para a sua degradação, deve merecer a melhor atenção do primeiro-ministro, visto que podem estar em causa as funções sociais do Estado, que devem ser tão vitais para um Governo de esquerda quanto o são as funções de soberania.

 

A fazer fé nos estudos de opinião, os portugueses não se mostram particularmente solidários com as greves nas áreas da saúde, dos transportes, da justiça ou das finanças (68,7% não se identificavam com elas na sondagem de Janeiro da Eurosondagem para o Expresso), nem se mostram adeptos de movimentos inorgânicos do género “coletes amarelos” (na mesma sondagem, cerca de 75% dos inquiridos não encaram essas manifestações como “uma boa maneira de pressionar o poder político”). Tudo isto não significa que os portugueses se sintam plenamente representados pelo leque partidário existente e pelos restantes organismos agregadores de causas e interesses comuns. 

 

Em ano eleitoral, os partidos agitam-se. No mercado da representação política, a oferta aumenta mesmo que a procura soçobre face à descrença ou ao cinismo. O populismo cresce, viçoso ou disfarçado sob a capa da indignação. À esquerda, registam-se deserções em nome do purismo revolucionário abastardado; à direita, novos arautos do liberalismo pretendem aproveitar a alegada “esquerdização” do PSD, enquanto Assunção Cristas ocupa o palco repetindo pressurosa e persistentemente que é a líder da oposição. E até para o “menino guerreiro” a luta continua. A esperança em Santana Lopes, e na Santa(na) Aliança que ele propõe – a geringonça da direita, o bloco de direita – é tal que, imaginem, até a advogada da Madonna é vice-presidente do partido. Melhor do que isto, só a própria Madonna, embora eu não creia que o eleitorado conservador a aprecie assim tanto. Tirando, talvez, aquela facção que se rege pela máxima da virtude pública e do vício privado, para quem a hipocrisia é um sinal de inteligência e de competência social.

 

Há quem ache, porém, que convém não exagerar numa visão ideológica demasiado extremada da disputa eleitoral. Paulo Rangel asseverou em entrevista ao Expresso “que nunca disse que era de direita, mas do centro ou centro-direita”. E em algumas matérias, até chega ao “centro-esquerda”. Mas, para ele, esta discussão “não interessa aos cidadãos”, concluindo: “(…) as pessoas estão em casa a ver se o PSD está dois milímetros mais para a esquerda ou dois milímetros mais para a direita? Os cidadãos querem é respostas para os seus problemas.”

 

O que parece estar aqui em causa é, no mínimo, a explicitação do celebrado pragmatismo do PSD e, no máximo, a desvalorização da política enquanto instrumento ideológico de mediação dos interesses e aspirações dos cidadãos. Parece que a ideologia só é útil para servir de arma de arremesso contra o poder do dia (quando este não é o que Rangel apoia), quando de um púlpito se fazem acalorados discursos contra abstracções como a “asfixia democrática” ou a “claustrofobia democrática”.

 

Imagem: inimigo.publico.pt

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