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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

DA FELICIDADE E DO NATAL

Dezembro 23, 2023

J.J. Faria Santos

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“Muita gente é incapaz de dizer a palavra ‘felicidade’ sem ironia ou distância”, escreveu Pedro Mexia no Expresso. Eu, cultor empenhado da ironia, jamais seria capaz de a manejar para delapidar a felicidade. Já manter em relação a esta uma mistura de reverência e cepticismo, não nego. Não que me veja enredado num trágico e melodramático estado de tristeza avassaladora. Simplesmente, não creio num estado de beatitude perpétua. Do meu ponto de vista, a felicidade ocorre em fogachos arrebatadores, que até se podem repetir, mas uma vida é sobretudo tranquilidade e harmonia, interrompidas por inquietações e rupturas.

 

Acolho o Natal com um gosto perfeitamente comum. Aprecio os enfeites e as luzes nas lojas, nas habitações e nas ruas. Ouço as canções da época sem me cansar – dos clássicos Have Yourself a Merry Little Christmas e Blue Christmas até aos mais contemporâneos Driving Home for Christmas e Last Christmas. Troco saudações com familiares, amigos e conhecidos que julgo irem além do protocolo, isto é, não são apenas uma manifestação de civismo ou gentileza porque incluem uma genuína vontade de que o fogacho se exiba no seu glorioso fulgor.

 

Não prescindo de ser eu a montar a árvore de Natal. Por se construída com adornos muito diversificados, aposto na continuidade cromática para lhe conferir alguma homogeneidade, em tons dourados e vermelhos. Que eu retire tanto prazer da sua montagem como da posterior desmontagem, na segunda semana de Janeiro do novo ano, talvez prove a minha disponibilidade para aceitar os ciclos da passagem do tempo, de que os rituais natalícios são mais um marcador.

 

O Natal é sempre, para mim, uma complexa mas aprazível mistura de celebração e nostalgia. Que este sentimento possa ser como o amor de um dos sonetos de Vinicius de Moraes: não “imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. E para que estejamos à altura do desafio do  renovar da esperança que cada ano traz, nada como ter a ousadia de contrariar este conselho sob a forma de poema do José Tolentino Mendonça (que, sabiamente, até parece querer instigar-nos à transgressão): “Mesmo que faça frio / não aproximes do fogo / um coração de neve”.

 

Foto: Marc N. Belanger (Wikimedia Commons)

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