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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

D. MARCELO I, O AFECTUOSO, E A MEGERA FEMINISTA

Maio 15, 2018

J.J. Faria Santos

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“Ele entrou-me no chuveiro, literalmente”, explicou João Sousa ao Expresso, referindo-se a D. Marcelo I, o afectuoso. “Eu nem no balneário estava, estava dentro do chuveiro. Dei-lhe um abraço e deixei o homem completamente molhado”, penitenciou-se o vencedor do Estoril Open. Empolgado com mais um vitória de Portugal, antevendo o impacto de ter um novo embaixador mais “qualificado e eficiente do que a generalidade da nossa diplomacia”, arrebatado pela performance no court do tenista luso, o Presidente não podia esperar que João Sousa terminasse o banho retemperador. A acção presidencial é assim: com ritmo, presteza, sem barreiras formais. Este não é apenas um Presidente que acha o Tribunal Constitucional muito “imprevisível”, e que prossegue a sua carreira de comentador político by proxy nas páginas do Expresso, utilizando fontes privilegiadas para os seus já célebres avisos e para projectar cenários. Este é o Presidente que pode irromper no quotidiano de qualquer português para o aspergir de afectos a qualquer instante. Inopinadamente, a qualquer hora e em qualquer lugar, perto de si. Mesmo que você não queira. Marcelo Nuno vela por nós.

 

Os afectos são eternos como os diamantes? A menos que sejam quase do domínio do espiritual, como é o caso de D. Marcelo I (primeiro mandato, entenda-se), é evidente que a resposta tem de ser negativa. Fernanda Câncio, em artigo no Diário de Notícias, fez “um juízo ético e político” sobre a conduta de José Sócrates. Nele, acusou o ex-primeiro-ministro de ter instrumentalizado “os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas” e de ter feito da “mentira forma de vida”.

 

A jornalista foi de imediato censurada, a começar pelos seus colegas de profissão. Henrique Monteiro diz que ela fez uma “autodevassa”, que não se pode “gostar de quem bate em quem está no chão” e que é preferível “ficar em silêncio e deixar os outros pensar que somos estúpidos, a falar e confirmar que o somos.” Já Miguel Sousa Tavares carregou na adjectivação: “indecência”, “má educação”, “mau gosto”, “cobardia e falta de carácter absolutos”, “reles comportamento” foram os qualificativos com que brindou Câncio. O argumento de Sousa Tavares resume-se assim: “Se ela (…) não se importava de beneficiar de um estilo de vida luxuoso pago pelo namorado, porque a choca tanto descobrir que também ele era pago pelo amigo?” A questão parece-me simplista e redutora. O artigo de Câncio é assertivo e demolidor para o carácter de Sócrates, mas equilibrado e rigoroso nas imputações que faz. Sousa Tavares, que lhe chama depreciativamente “campeã do feminismo”, parece ignorar que não está aqui em causa a revelação de pormenores íntimos de um relacionamento, mas apenas e só a constatação de uma evidência: Sócrates iludiu todos aqueles que acreditaram na explicação que deu para o estilo de vida que mantinha.

 

Onde Sousa Tavares viu uma feminista deslumbrada pelo luxo descolando do ex-namorado, João Miguel Tavares viu uma feminista subjugada pelos encantos do “mais básico e caricatural macho alfa”. Diz que ela “não sabia que ele era corrupto” (mais um com sentença transitada em julgado…), mas, coitadinha, foi manipulada. Confessado o pecado, o laico colunista prescreve a penitência: explicar como e por que razão se deixou enganar.

 

O mais extraordinário em João Miguel Tavares, cuja coluna no Público tem o título de “O Respeitinho não é bonito”, é que ele escreveu que se houvesse “algum indício forte” contra Câncio “o Ministério Público não teria hesitado em acusá-la”. Porque ela merecia. Porque foi “arrogante nos interrogatórios” e tem a “mania de calar o essencial e vociferar sobre o acessório”. O respeitinho não é bonito? Tem dias…O cancioneiro da Fernanda não agrada ao João Miguel quando ela “é arrogante nos interrogatórios”.

 

O problema é que a mulher vocifera! Até é capaz de ser esganiçada… Podia dar uma entrevista em tom suavemente consternado à Caras ou à Cristina no seu papel de inteligente mulher enganada, ou explicar no Alta Definição o que diziam os olhos dela, oportunamente nublados pela emoção. Mas não… A mulher é saliente, protuberante, vociferante. Levem-na para a praça pública e condenem-na à lapidação. Metaforicamente, claro, que não somos selvagens e a coitadinha foi enganada. Mas não deixa de ser uma megera feminista.

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