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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

CR7 NO EPICENTRO DO FURACÃO KATHRYN

Outubro 09, 2018

J.J. Faria Santos

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A versão simplificada e simplista pode ser esta: uma oportunista de moral fluida, habituada a atrair clientes para que estes consumam nos bares, aproveitou a circunstância para se vitimizar com o fito do lucro. Ou, em alternativa, uma estrela em ascensão, jovem, rico, famoso e egocêntrico, julgou inimaginável e irrelevante  a possibilidade de alguém querer frustrar os seus apetites sexuais.

 

A versão dos acontecimentos narrada à Der Spiegel por Kathryn Mayorga teve já repercussões na cotação em bolsa da Juventus (queda de 9,92% na passada sexta-feira), e também na marca Ronaldo, com patrocinadores a exprimirem preocupação. A pior reacção, porém, foi a do próprio jogador, via Instagram, num lamentável vídeo. Mesmo que se prove que a razão está do seu lado, a displicência da pose e a alusão a fake news (uma expressão associada a quem manobra com deleite mentiras e falsidades) não credibiliza a sua posição.

 

O que é que julgamos saber com razoável certeza? De acordo com o relato da Der Spiegel, os dois encontraram-se num clube nocturno em Las Vegas em 12 de Junho de 2009. Depois de lhe ter pedido o número de telefone, Ronaldo acabaria por lhe enviar um SMS convidando-a para uma festa no seu hotel, para onde ela se dirigiu na companhia de uma amiga. Relutante em saltar para o jacuzzi, por não querer estragar o vestido, Kathryn acabaria por aceitar a camisola e os calções que ele lhe providenciou. Foi enquanto trocava de roupa que tudo se precipitou, culminando na prática de sexo anal. Às 14h16m do dia seguinte, Kathryn telefonou para a polícia e pouco antes das quatro começou a ser examinada no hospital. As lesões foram fotografadas.

 

A advogada dela sugeriu-lhe um acordo extra-judicial. A identidade da vítima seria protegida, o procedimento mais rápido, uma compensação seria obtida.  Num e-mail trocado entre os advogados de Ronaldo, constam declarações deste afirmando que Kathryn lhe dissera “não e pára varias vezes”. E ainda “não faças isso” e “não sou como as outras”. No final, pediu-lhe desculpa. Depois de a equipa legal do jogador nos Estados Unidos ter contratado detectives privados para vasculharem a vida dela, aparentemente sem resultados úteis, foi acordada uma compensação de 375 000 dólares que contemplava um rigoroso acordo de confidencialidade. Que agora foi quebrado, porque o novo advogado dela o considera legalmente inválido.

 

Subjacente a todo este episódio, pode estar implícita a noção caricatural da necessidade de uma espécie de regulamentação do exercício dos afectos. Como se, no limite, quase se tornasse necessário estabelecer um contrato com cláusulas que definam explicitamente as condições em que os dois outorgantes se podem envolver em práticas sexuais, bem como as variantes que estas podem assumir. Por outro lado, seria grosseiro e estulto imaginar que uma mulher num primeiro encontro não pudesse aceitar um convite para uma festa na casa de um homem, frequentar o seu jacuzzi e beijá-lo sem correr o risco de ser violentada.

 

As acusações têm de ser provadas. Só conhecemos, com algum detalhe, a versão de uma das partes. Que apesar de  suficientemente danosa ainda não passou pelo teste do contraditório. Kathryn Mayorga refere que Ronaldo lhe disse que em “99% das vezes é um bom rapaz”. A ser assim, esperemos que o 1% que corresponde à manifestação do mal (a que nenhum de nós, independentemente do sexo ou da condição social, é imune. Quem de nós nunca se confrontou com o arrependimento?), a ter sucedido aqui, não acabe por ter implicações criminais. É que nem sempre o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas.

 

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