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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

CONAN, O BÁRBARO

Março 05, 2019

J.J. Faria Santos

conan_fest.jpg

O Império Romano apreciava a destreza militar dos bárbaros que serviam no seu exército. De resto, tratava-os com condescendência e desprezo. Quando eles assomaram às fortalezas, conquistadores não servos, viu-se como a sobranceria e o complexo de superioridade podem derrubar colossos. Também o império da música mainstream aprecia a rebeldia e a originalidade, desde que devidamente enquadradas pelos seus códigos e instituições. Quando essa originalidade instala uma estranheza disruptiva, e se mostra difícil de enquadrar nos modelos existentes, a reacção é imediatamente negativa.

 

A seu modo, Salvador Sobral introduziu a ruptura ao recusar os “fireworks”, apostando no despojamento, no classicismo dos arranjos e na sobriedade da interpretação, para dar corpo ao seu lema de que “música é sentimento”. O mesmo sentimento está presente na interpretação de Conan Osiris, facto que o aparato cénico (a máscara facial, os apetrechos digitais, a performance heterodoxa do bailarino) não oculta nem desvaloriza. Quando ele canta “Eu parti o telemóvel / A tentar ligar para o céu / P[ar]a saber se eu mato a saudade / Ou quem morre sou eu”, é irresistível imaginar se a espécie de dança xamânica que vemos no palco não será uma forma de exorcizar essa saudade. Quem decretou que ela tem de ser vivida no recolhimento e na passividade?

 

A imperfeita comparação que alguns têm estabelecido entre Conan e Variações não tem origem apenas nos maneirismos vocais ou no arrojo do guarda-roupa e da apresentação em palco. Há na ilusória simplicidade das suas letras e na aparente banalidade dos temas escolhidos uma intencionalidade que vai para além da função utilitária da linguagem. É por isso que em trechos como “Se a vida ligar / Se a vida mandar mensagem / Se ela não parar / E tu não tiveres coragem de atender / tu já sabes o que é que vai acontecer”, o que está em causa não é apenas um texto anódino a servir de base àquilo que Judy Cantor-Navas na Billboard apelidou de “mistura de estilos e sons que incluem fado, hip hop, techno, rock, kuduro e influências da musica árabe e de Bollywood”. Nestas breves linhas da letra de uma canção de três minutos pode vislumbrar-se o aviso e o incentivo, a necessidade de escutar e a disponibilidade para agir. No fundo circunstâncias de que a vida é feita, matérias sobre as quais um artista edifica a sua obra.

 

Imagem: foto de Pedro Pina (24.sapo.pt)

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