CITIZEN CR7
Novembro 23, 2025
J.J. Faria Santos

A figura pública Cristiano Ronaldo não me desperta arroubos de entusiasmo ou rancores avassaladores. Percebo o poder de uma narrativa rags-to-riches e o apelo de uma odisseia pessoal de superação, ainda para mais quando assente numa vontade inquebrantável, na perseverança e num profissionalismo impenitente. Compreendo a dimensão das suas conquistas, os troféus individuais e colectivos que amealhou e os recordes que bateu. Aprecio que tenha o perfil de quem apoia a família e os amigos, e que tenha feito doações a instituições como a Cruz Vermelha e a UNICEF e financiado unidades hospitalares, para além de outros gestos de filantropia. A Bota de Ouro que recebeu referente à época 2010/2011 foi leiloada por 1,3 milhões de euros, verba cujo destino foi o de apoiar a construção de várias escolas em Gaza.
Tudo o resto me deixa indiferente ou, quando muito, com uma impressão negativa contaminada por uma certa tolerância, porque afinal a inconsciência, a soberba e a vaidade são características da natureza humana a que nem os aspirantes a deuses escapam. O mesmo pode ser dito do narcisismo, da hipersensibilidade à crítica e da aparente preponderância atribuída ao êxito individual sobre o colectivo, por exemplo. Já para não falar do resto, que não ignoro, mas cujo conhecimento não aprofundo por absoluta falta de interesse. Falo dos carros que possui, do jacto privado, do seu património imobiliário, do facto de ser o primeiro futebolista com uma fortuna superior a mil milhões de dólares. Ou das peripécias que envolvem a corte que o rodeia: da Georgina vedeta da Netflix à estimável carreira publicitária da também seguramente estimável D. Dolores, passando pelos pronunciamentos das irmãs nas redes sociais.
Em circunstâncias ideais, um ícone global e um ídolo juvenil deveria ter noção das responsabilidades acrescidas de ser visto como um modelo a seguir. E fazer-se rodear de conselheiros que, para além de gerirem a sua fortuna ou a agenda mediática, lhe incutissem alguns laivos de consciência política, que o afastasse daquilo que parece ser uma tendência que o aproxima de Trump – uma visão transaccional das relações interpessoais. Cristiano Ronaldo mostrou-se empolgado por um Donald Trump que para uns já estabeleceu um “regime fascista” (Jason Stanley) e para outros criou um “regime autoritário competitivo” (Steven Levitsky). E prometeu fazer a sua parte, “inspirando as novas gerações a construir um futuro marcado pela coragem, pela responsabilidade e pela paz duradoura”. Pior, claro, foi a sua colaboração com o branqueamento de uma ditadura teocrática. Esperemos que esta “parceria” não seja inspiradora para as novas gerações.
Mas o que são estas considerações perante o privilégio de conviver com la crème de la crème, com o homem mais poderoso do mundo ou com um génio como Elon Musk, imortalizado com uma all-star selfie? Ou de degustar num ambiente sumptuoso uma sopa de abóbora com mel ou um carré de borrego com crosta de pistacho?
Convenientemente maquilhados, vestidos para brilhar, superestrelas do nosso star system, Gio e CR7 mergulharam alegremente numa bolha de superficialidade e falta de senso. Siiiiiiiiiiiiiiiim!
Foto: Daniel Torok