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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

CHECK-OUT (NO BANCO), CHECK-IN (NO HOTEL)

Julho 23, 2014

J.J. Faria Santos

                                       "Portrait of a Banker" de Mabuse

                                          (Courtesy of www.bertc.com)

 

Há no modus operandi um sinal de distinção: a enorme distância entre transferir documentos do seu escritório no banco para duas salas alugadas no Hotel Palácio e, digamos assim, acumular arquivo num anexo secreto junto à casa de banho. Já basta o desplante da populaça se permitir dar palpites sobre o complexo mundo da alta finança e de jornais internacionais de referência lhe darem voz. O jornal The Guardian, numa peça intitulada Portugal’s Espírito Santo accelerates boardroom changes amid turmoil, auscultou a opinião de (Oh! Horror dos horrores!) um taxista, que assumiu ser assustador que gente “que toda a gente sabia serem os donos de Portugal” tenham criado tamanha confusão, mas, sentenciou por fim, “todos sabíamos que os Espírito Santo não tinham nada de santo”.

Já o Wall Street Journal, num artigo assinado por Patricia Kowsmann, noticiou que os problemas na ESI já eram evidentes desde 2012. Para além de ecos das críticas dos investidores às entidades reguladoras, o jornal cita Passos Coelho (um indiscutível upgrade quando comparado com o respeitável taxista…), e um economista do Barclays, António Garcia Pascal, que serve de porta-voz aos investidores que manifestam estranheza pelo facto desta situação não ter sido detectada e solucionada mais cedo, o que suscita dúvidas em relação a outros problemas que poderão afectar o sistema bancário.

Mas se nos abstrairmos da titilante novela da queda do todo-poderoso banqueiro, mais tonitruante porque ele projectava uma imagem de invulnerabilidade e intocabilidade, o que é relevante é o que Ricardo Costa referiu na sua coluna no Expresso: “Nos últimos cinco anos, os bancos portugueses consumiram 18 mil milhões de euros. Engoliram esse dinheiro apenas para tapar buracos e reforçar capital. Ou seja, dinheiro que não foi para a economia e que não chegou ao bolso de ninguém.” O que de certa maneira se entronca com a visão de Rana Foroohar, na Time, aplicada aos Estados Unidos mas que pode ter uma leitura mais universal, de que “cada vez mais, os negócios estão ao serviço dos mercados mais do que os mercados ao serviço dos negócios”. Foroohar alinha argumentos para demonstrar que se mantém uma política empresarial de prevalência dos lucros de curto prazo sobre a criação de valor e a sustentabilidade dos postos de trabalho. E tira a conclusão óbvia: “Muitos pensavam que a crise económica e a Grande Recessão enfraqueceriam o poder dos mercados. Na verdade, até reforçou o controlo da finança sobre a economia.”

Ricardo Salgado era o DDT. Os novos Donos Disto Tudo, anuncia Pedro Santos Guerreiro no Expresso, são os mercados, os investidores estrangeiros. Os tais que nos EUA arrecadam 30% dos lucros empresariais e criam apenas 6% dos postos de trabalho do país. E que continuam a criar e a negociar os produtos financeiros complexos aos quais Warren Buffett chamou “armas de destruição maciça”. Vai ser importante uma regulação credível e interventiva. Porventura intrusiva (como diria o FMI…). E um poder político atento ao interesse nacional. Que não se deixe capturar pelos interesses financeiros. O capital pode não ter pátria, mas a pátria não se transacciona, nem pode permitir que a negociação de condições de financiamento configure uma situação de capitulação perante interesses externos, ou de abdicação da defesa de padrões mínimos de coesão social.

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