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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

CARPE DIEM

Janeiro 23, 2014

J.J. Faria Santos

Em 1947 Tennessee Williams publicou no The New York Times, quatro dias antes da estreia em Nova Iorque de Um Eléctrico Chamado Desejo, um ensaio onde reflectia acerca do sucesso da peça em questão. O artigo, publicado na Secção de Teatro, terminava com o seguinte parágrafo: “O tempo da vida é breve e não retorna. Vai-se escoando no momento em que escrevo isto e no momento em que vocês me lêem, e o relógio bate Perda, Perda, Perda, a não ser que nos dediquemos de todo o coração a contrariá-lo”.

Na mesma manhã em que ouvi na televisão a notícia da morte de Eusébio, fui informado do suicídio de alguém que eu conhecia (superficialmente, muito superficialmente). Por um lado o corolário da fragilização progressiva do estado de saúde de uma figura pública, por outro lado a escolha (?) voluntária de se demitir de viver do comum dos mortais. De um lado o epílogo de um sucesso planetário numa actividade que arrasta multidões, do outro lado a etapa final de um percurso pessoal aparentemente estável na massa anónima que preenche uma cidade. Que sabemos nós das pessoas com quem nos cruzámos e com quem travámos conversas de circunstância?

Podemos achar que a vida é um festa permanente, ou que nos exige esforço para a tornar aprazível, ou ainda que é uma montanha de dificuldades que, depois de transposta, nos recompensa com uma planície de deleites, mas nada sabemos do sentimento íntimo, impenetrável, de cada ser que nos interpela com a sua bonomia ou a sua rispidez. Numa outra peça de T. Williams, Gata em Telhado de Zinco Quente, Margaret recita: “Quando algo nos persegue na nossa memória ou na nossa imaginação, as leis do silêncio são inúteis, é como fechar uma porta à chave numa casa numa casa em chamas na esperança de nos esquecermos que ela está a arder. Mas fugir do incêndio não o apaga. O silêncio em relação a uma coisa só lhe aumenta o tamanho. Cresce e apodrece em silêncio, torna-se maligna…”.

Aproveitemos os dias, pois, mas sem proselitismos nem ilusões. Sem a pretensão de conceder a este lema um estatuto de panaceia multiusos. Porque há certos males, reais ou imaginários, que não se conseguem extirpar.

 

(Citações extraídas de “Um Eléctrico Chamado Desejo e Outras Peças” de Tennessee Williams, tradução de Helena Briga Nogueira, Relógio D’Água Editores)

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