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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

AS COBRAS E OS SILÊNCIOS QUE METEM NOJO

Agosto 06, 2019

J.J. Faria Santos

 

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Ainda não chegámos à América, onde Trump considera a comunicação social “inimiga do povo”. Julgo, também, que ainda não chegámos à Madeira, onde um furibundo Jardim, há mais de uma década, chamava aos jornalistas (ou “alguns na comunicação social”, numa formulação propositadamente mais ambígua) “bastardos para não lhes chamar filhos da puta”. Recentemente, no calor do debate mediático acerca das golas inflamáveis (que afinal não o são, mas, por outro lado, poderão causar “crises respiratórias agudas”), o ministro Eduardo Cabrita teceu em on um comentário despropositado acerca da potencial inflamabilidade de um microfone e em off desconsiderou os jornalistas apelidando-os de “cobras”.

 

Nunca é excessivo frisar a imprescindibilidade de uma comunicação social livre. Livre para ser rigorosa, exaustiva, intrusiva ou até inconveniente para os poderes instituídos. Sobre estes recai o dever de acolher o escrutínio e oferecer os esclarecimentos que se impuserem. Ninguém, jornalistas ou governantes, está acima da crítica, mas o detentor de um alto cargo público tem um dever acrescido de prestar contas de forma urbana na forma e esclarecedora no conteúdo. E, sobretudo, tirar conclusões, para que não se repita a distribuição de materiais que não cumprem adequadamente o objectivo a que estariam destinados. Ou para obstar a que a aquisição de bonés e canetas seja feita por ajuste directo sob a alegação de “urgência imperiosa”.

 

Dito isto, parece-me que a hipersensibilidade é um mal que se distribui pelos dois lados, levando a conclusões extemporâneas. Quando a jornalista Graça Franco parte de uma censura lógica ao comportamento do ministro para aventar que tal “pode constituir a prática corrente de um futuro não muito longínquo”, e aproveita para relembrar uma célebre frase de Jorge Coelho (“Quem se mete com o PS leva”), entramos num território que se aproxima demasiado da delirante “asfixia democrática” que alguns tanto glosam. Quando os jornalistas se socorrem dos clichés dos agentes políticos, é legítimo que suspeitemos que o fazem por falta de confiança na independência das instituições que enquadram o seu trabalho, por simpatia ideológica ou por uma qualquer propensão para antecipar distopias a partir de um qualquer infeliz incidente.

 

Já Pedro Santos Guerreiro, numa nota de rodapé à sua coluna no Expresso, optou por uma formulação mais psicanalítica, aludindo a “um discurso parente do ódio de quem tem a mente entortada pela adversidade. Ou de quem está a precisar de férias.”  O que me fez de imediato recordar um artigo que o actual director do jornal, João Vieira Pereira, escreveu em Outubro de 2015, sob o título visceral de Um silêncio que mete nojo. Nele, Vieira Pereira insurgia-se contra o silêncio dos empresários, que ele pretendia ver unidos numa sublevação contra “um governo refém da extrema-esquerda”. E lamentava-se que os empresários portugueses não fossem “liberais”, acrescentando: “(…) não querem apenas a chucha de volta, Querem um biberão cheio de leitinho morno.” 

 

Não sei se o “nojo” de Vieira Pereira tinha origem numa “mente entortada pela adversidade”, numa falta de férias ou num forte ímpeto de intervenção cívica. Sei apenas que estava, legitimamente, vertido numa coluna de opinião. Hoje, mais do que nunca, é fulcral que se torne perceptível aos cidadãos a separação entre facto e opinião, evitando amálgamas. E, para além de ser útil um certo sentido das proporções, convém não confundir informação com ruído mediático.

 

Fotografia: jornaleconomico.sapo.pt

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