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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

ABRIL EM PORTUGAL

Abril 23, 2014

J.J. Faria Santos

“Este senhor Salazar / É feito de sal e azar. / Se um dia chove, / A água dissolve / O sal, / E sob o céu / Fica só o azar, é natural. / Oh, c’os diabos! / Parece que já choveu…”, escreveu Fernando Pessoa a 29 de Março de 1935. A 24 de Abril de 1974 já se tinha dissolvido enquanto actor de poder o homem de quem Eduardo Lourenço disse que cultivava “a arte do apagamento e da obscuridade, a grande arte do silêncio”. A governar o país, Marcello Caetano, para quem a democracia era um estranho lugar, arbitrava a peleja entre os liberais e os ultras, enquanto procurava suster os ventos de mudança. No dia 25 de Abril de 1974 começou a aprendizagem da liberdade.

No princípio, era o verbo. A palavra solta, liberta da tirania dos iluminados para quem o imperativo de uma certa ordem dispensava o livre-arbítrio e justificava a opressão, a supressão e a repressão. Uma elite dirigente, que em nome da preservação do statu quo delegava em canhestros executantes a tarefa da censura, julgava poder eternizar, à conta da mansidão de uns alegados brandos costumes, a sabotagem da indignação que sucede à indignidade.

Valeu a pena. Por tudo. Mas principalmente pela palavra. Que se oferece com dúvida ou com convicção, com serenidade ou com revolta. Que se dispara à mesa do café ou nos fóruns da rádio e da TV, que se arremessa nas manifestações e que se deposita nas petições como se fosse um testemunho de cidadania. Com parcimónia ou com desbragamento. Com frontalidade ou ambiguidade. Elogiosa ou injuriosa. Valeu a pena. Nenhuma palavra dita poderá causar maior mal que o provocado pela palavra reprimida ilegitimamente. Neste como noutros domínios, porque existe um tempo justo para qualquer proclamação, todo o excesso é reparável e toda a escassez irrecuperável.

 

 

 

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