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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A SOLIDÃO E O RECOLHIMENTO SEGUNDO EDWARD HOPPER

Junho 22, 2020

J.J. Faria Santos

Room_in_New_York_Hopper.jpg

Nas masmorras do confinamento, privadas da interacção social, restritas a um núcleo duro de afectos insuficiente, obrigadas ao convívio forçado, as pessoas experimentaram o paradoxo do convívio da brutal solidão com o anseio do isolamento. A dada altura, esgotados os jogos de salão e com a imaginação em perda, recriar no microcosmos do lar toda uma existência revelou-se esgotante e exasperante. E até a realidade virtual do Facebook e do Instagram sofreu pela falta de “eventos” e de oportunidades para realçar o glamour e o lifestyle. A vida interrompida passou a vida recriada (com uma viagem pelo interior, na dupla acepção de reflexão íntima acerca do sentido da existência e das intimações da morte e também de experimentação da turbulência causada pela convivência no casulo, com expedições cirúrgicas ao exterior sob o espectro do medo) e, por fim, ao resgate mitigado das condições de vida tradicionais que o desconfinamento permitiu.

 

Num artigo acerca da “iconografia do isolamento”, editado em Abril no Público, Vítor Belanciano notava que em tempos de pandemia se partilhavam nas redes sociais imensas reproduções de obras de Edward Hopper, mas fazia questão de lembrar que “a solidão não tem necessariamente que ver com o confinamento físico. É mais um sentimento de ausência de ligação, de proximidade, de intimidade. Como se resultasse de uma dificuldade em definir o grau de vínculo desejado.” Neste caso, a culpa é da vontade ou da indecisão no grau de comprometimento. Belanciano defende que “cada quadro parece ser a atomização de uma imagem pertencente a uma realidade mais vasta”. E esta circunstância, claro, convida ao enredo, a efabulação, à dramatização, onde cada cena do quotidiano (no teatro, numa cafetaria ou num quarto numa habitação) é um prenúncio de descalabro emocional.

 

Não que esta pareça ter sido a intenção de Hopper - criar uma espécie de fotograma de um filme, um melodrama, que o espectador realizaria na sua mente. Pedro Mexia citou no Expresso o crítico de arte da New Yorker, que considerou a ideia de associar os quadros de Hopper à solidão como “uma projecção lamechas”. O próprio Mexia confessa ter encontrado neles “mais introspecção e despojamento do que desespero de não ter ninguém”. Peter Schjeldahl, o crítico da New Yorker, escreveu que nas obras do pintor nenhum juízo é emitido acerca dos retratados, dado que a “evidência nua e crua da existência deles é suficientemente provocadora”. É, porventura, esta capacidade de nos interpelar que leva Schjeldahl a considerar que Hopper “deixa-nos a sós com o nosso próprio isolamento, retirando-nos o fôlego sem no-lo devolver”.

 

Respiremos fundo, então. Concentremo-nos na nossa condição de espectadores, cujo olhar, na análise de Ivo Kranzfelder num volume da Taschen dedicado a Hopper, é o tema de quase todas as telas do pintor americano. Claro que “o contemplador permanece no exterior”, remetido ao papel de voyeur. E para Kranzfelder “a questão fundamental incansavelmente posta por Hopper é a seguinte: como funciona o fenómeno da percepção? Ou, ainda mais precisamente, o que é a realidade?” Remetidos a esta condição e confrontados com figuras que nos ignoram, mas intrigam, como resistir à tentação da construção de uma narrativa? Como declinar a excitante tarefa de, sobre uma tela de Hopper, desenvolver a nossa percepção da realidade (“lamechas” ou orgulhosa, devastadora ou ferozmente independente, ou ainda, pura e simplesmente, banal)?

 

Vejamos, a título de exemplo, o quadro Room in New York. Um instantâneo de tédio, uma instalação de monotonia? Uma cena doméstica, urbana, com a mulher a martelar displicentemente o piano, enquanto o homem, aparentemente mais concentrado se debruça sobre o jornal. O que retirar desta provável cena conjugal: a tensão da incomunicabilidade? Arrisquemos a “interpretação” contra a corrente. Imaginemos um cenário pós-confinamento em que, por caprichos da vontade, decidem ficar em casa (precisamente porque já não se sentem coagidos a fazê-lo). Ele acaba de ler o jornal e pousa-o na mesa. Recosta-se no assento e contempla a mulher que se ergue e aproxima, trocando o afago das teclas do piano pela suavidade das veias que mapeiam as mãos dele. Com as crianças ausentes de visita aos avós sedentos de afecto, há todo um mundo de possibilidades que se abre para as manobras da conjugalidade. Adicionemos o estímulo de uma bebida espirituosa e o som de Keith Jarrett a tocar Someone To Watch Over Me. A ausência de palavras, longe de serem sinónimo de desistência ou desalento, são agora o testemunho de uma cumplicidade, o prenúncio de um festim.

 

IMAGEM: "Room in New York" de Edward Hopper (www.wikiart.org)

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