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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A RAINHA SENTADA NO TRONO DA SUA VOZ

Outubro 06, 2019

J.J. Faria Santos

amalia_tudela.jpg

 

A Variety chamou-lhe “uma das quatro melhores vozes do mundo” e a New Yorker achou-a “uma coisa muito especial”. Actuou nos melhores palcos, incluindo locais míticos como o Mocambo, o Lincoln Center ou o Hollywood Bowl, e cantou ao lado de nomes como Nat King Cole, Eartha Kitt ou Lena Horne. Conheceu vedetas de cinema como Jane Powell, Danny Kaye ou Anthony Quinn e estrelas do mundo da música como Édith Piaf, Charles Trenet, Gilbert Bécaud ou Plácido Domingo. (Orson Welles considerou que era “excepcional assistir a um espectáculo dela”.) Privou com figuras das letras como Ernest Hemingway, Marguerite Yourcenar e Pablo Neruda, que lhe dedicou um poema cuja segunda estrofe reza assim: “Te quiero sólo porque a ti te quiero, / Te odio sin fin y odiandote te ruego, / Y la medida de mi amor viajero, / Es no verte y amarte, / Como un ciego”.

 

Amália Rodrigues, ícone de Portugal e vedeta do mundo, esteve sempre no ponto de intersecção onde a portugalidade se unia ao cosmopolitismo e a tradição se encontrava com o vanguardismo. Lucidamente dizia: “Talvez eu não seja criadora, mas quando canto estou a inventar”. E foi este movimento de apropriação criativa, aliado a uma voz superlativa e a uma capacidade interpretativa notável, que lhe permitiu releituras únicas e intransmissíveis de temas como La Vie en Rose, The Nearness of You ou Summertime. Claro que o fado era a origem, a matriz, algo que lhe moldava a estranha forma de vida entre o funesto e a predestinação. Também aí inovou, com subtis técnicas de corte, recorte e reconversão. Como escreveu António Guerreiro: “Impregnado de consciência trágica, o seu fado tem a substância da tristeza e da perda”(Expresso - Actual 3/10/2009).

 

Vinte anos passados desde a sua morte continuamos com Amália na voz. Como com todos os grandes ídolos, que reverenciámos à distância, vivemos na ilusão de a ter conhecido e acolhemos com entusiasmo mesmo os mais breves vislumbres do seu quotidiano. José Manuel dos Santos, no catálogo da exposição Amália – Coração Independente, descreveu assim um pedaço do mundo dela: “Os serões em casa de Amália eram uma mistura de salão aristocrático, casa de fados, cenáculo cultural, acampamento de ciganos, templo de adoração, gabinete de curiosidades, camarim de intrigas, palco de teatro. (…) E vivia rodeada de gente, cercada de sentimentos, atravessada por vozes, percorrida por ditos, esperada por anseios. (…) Aquilo era uma corte e ele era a sua rainha sentada no trono da sua voz”. Escusado será dizer que, hoje, Amália continua sentada no seu trono e nós permanecemos súbditos leais de uma monarca imortal.

 

IMAGEM: Pormenor de fotografia de José Tudela

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