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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A QUEDA DO MURO DE BERLIN

Agosto 09, 2016

J.J. Faria Santos

lucia_berlin.jpg

                                         Fonte: www.luciaberlin.com

 

A vida tal qual ela é. Um compromisso entre o desejo e a possibilidade. Um olhar honesto e por vezes brutal, que reconhece os limites da empatia. Porque afinal “qualquer pessoa que diga que sabe como outra se sente é um idiota” (in A lavandaria self-service do Angel). Instantâneos perspicazes do quotidiano, conclusões surpreendentes (“A solidão é um conceito anglo-saxónico” – in Parva por chorar), retratos eloquentes do serviço de urgência (“A Maud, bebida e aos berros, está espojada numa maca, amassa-me o braço como um gato neurótico” – in Bloco de notas das urgências, 1977).

 

O olhar de Lucia Berlin sobre as suas personagens pode ser comparado ao Jesse do seu conto Quero ver-te sorrir. Jesse “não era bondoso. Bondade é uma palavra como caridade; implica um esforço. (…) O Jesse tinha para com toda a gente uma curiosidade compassiva”. É esta qualidade que ela aplica na soberba descrição de uma mãe no conto . Uma mulher infeliz e cruel que recomenda à filha que não procrie, que detestando crianças as instava a recuar “como se fossem uma matilha de dobermans”, que considerava que o amor tornava as pessoas infelizes e que, quando cortou os pulsos, deixou um bilhete suicida assinando Bloody Mary. Talvez não seja abusivo acentuar o carácter biográfico dos contos reunidos em Manual para mulheres de limpeza, até porque a própria autora escreve num deles, Ponto de vista, que “a maioria dos escritores usam adereços e cenários das suas próprias vidas”.

 

Deparamos com as comparações com Carver, Proust ou Tchekov, e com os encómios superlativos (“escrita ao mais alto nível” – London Review of Books; “pode ser a melhor escritora de sempre” – Publishers Weekly), e permitimos que algum cepticismo se instale. E não é que ele se dissipa? Lucia, acima de tudo,  derrubou o seu muro: o do relativo anonimato ou da escritora de culto dos happy few.

 

“Talvez não seja uma coisa assim tão perigosa de fazer, deixar o passado entrar com o prefácio ‘E se?’”, escreveu Berlin em Voltar a casa. É uma memória que se interroga muito para além da inquietação ou da recriminação, e que aceita o inevitável e o imutável. Mas que compreende que, para sobreviver, por vezes é preciso “fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso”.

Em Espera um minuto, Lucia Berlin explica que quando alguém tem uma doença terminal, “todos os dias nos despedimos um bocadinho”. E que “estamos sempre a olhar para o quadro das Partidas e das Chegadas”. Que na grande estação da Literatura, só agora nos tenhamos apercebido da chegada de Berlin é seguramente lamentável. Mas nunca é tarde para absorver as suas crónicas de um quotidiano que se ergue acima da banalidade e do insólito por causa da humanidade dos seus protagonistas.

 

Confesso a minha incapacidade em fazer um ranking de escritores. Desconheço se ela se prepara para aceder ao cânone ocidental. Mas posso testemunhar que o Washington Post acertou quando equiparou o conhecimento da escrita de Lucia Berlin a um “prazer extraordinário”. Satisfaz-me, sobremaneira, celebrar este prazer, em tempos de glorificação da culpa e da expiação.

 

(Manual para mulheres de limpeza, de Lucia Berlin, tem tradução portuguesa de Rita Cana Mendes e chancela da Alfaguara.)

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