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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A PAISAGEM HUMANA

Maio 22, 2022

J.J. Faria Santos

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O percurso é basicamente o mesmo nos dias úteis. Há sinais de permanência e de continuidade que constituem o conforto da rotina (o que deve horrorizar os apóstolos das “novas experiências”). Todos os dias, os mesmos prédios devolutos ou em ruínas, o mesmo cão idoso e pachorrento com nome de pintor célebre (Miró), a mesma avó a levar o neto à escola, o mesmo septuagenário na sua caminhada higiénica. E os exemplos poderiam continuar. Ao contrário do dito que termina com “…e o resto é paisagem”, neste caso é a paisagem, a paisagem humana, que interessa.

 

Porque um dia, um dia igual a qualquer outro, subitamente significativo para um grupo de indivíduos unidos por laços de sangue, de amizade ou de empatia, há uma ausência que se destaca, como uma árvore arrancada pelo vento inclemente ou uma pradaria destruída por um incêndio devastador. A mulher que tratava diariamente do seu jardim, o homem cabisbaixo de andar incerto, a rapariga que friccionava as raspadinhas ansiosa pelo Aladino da sorte, todos deixaram uma cratera no lugar do quotidiano. Na melhor das hipóteses, uma circunstância benigna ou uma doença passageira subtraíram-nos à nossa visibilidade; na pior, poderemos apenas revê-los numa fotografia numa lápide a testemunhar a “eterna saudade”.

 

Podemos, no lufa-lufa da nossa vivência, apreciar uma árvore frondosa, um gato audaz, uma refeição gourmet, o ronco do mar ou a penumbra da vida nocturna, mas é a paisagem humana que nos interpela e nos implica. E a súbita ausência de uma peça do nosso puzzle existencial, mesmo que aparentemente supérflua ou inócua, adquire um significado: o de nos lembrar que tudo é transitório e fugaz. Ficaremos, apenas, com as lembranças, esse poderoso placebo. E, citando Valérie Perrin (A Breve Vida das Flores – Editorial Presença), “as recordações são impasses por onde passamos sem cessar”.

 

Imagem: Michele Del Campo - "Floating Words" (micheledelcampo.com)

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