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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A ONTOLOGIA DO TOURO E A TOURADA LIGHT

Dezembro 04, 2018

J.J. Faria Santos

Bullfight_in_Maracaibo_.jpg

A discussão inflamou-se com o combustível ministerial. Uma questão de civilização, de recusa da barbárie, disseram uns; fundamentalismo da causa animal, recusa da tradição, liberdade ameaçada, afirmaram outros. Adquirido civilizacional versus ditadura do gosto. A refrega culminou com um desagravamento fiscal, que teve direito a banda sonora e a um efusivo “olé”, ambos cortesia do deputado Campos Ferreira.

 

Do ponto de vista dos aficionados, é no combate valoroso entre o homem e o touro que este último demonstra a sua natureza, se realiza enquanto ser vivente. E se porventura o leitor se incomodar com esta estranha forma de vida, com o seu quê de masoquista, saiba que, citando o site touradas.pt , o touro “tem reacções hormonais únicas no reino animal (que lhe permitem anestesiar-se quase imediatamente)”.

 

Um dos mais notáveis contributos deste site é a interpretação autêntica dos sons emitidos pelo touro, o que me leva a propor, no contexto de modalidades alternativas de tourada light, que, para além do velcro, se estudem formas de acoplar ao touro um microfone que amplifique os seus desabafos e imprecações, o que permitiria a arbitragem das suas motivações de uma forma inequívoca.

 

Vejamos um exemplo: se em plena arena, o touro emitisse um mugido (que é descodificado como uma “queixa”), não seria de concluir que não estava disponível para exibir a sua bravura? Podia estar doente ou a sua natureza ter sido pervertida…E por falar em perversão, se por acaso ele soltasse um bramido, definido como “um som irritado característico da época do cio e do acasalamento”, não seria avisado (atendendo à integridade física e ao direito à autodeterminação sexual dos forcados) interromper a faena? Já se o valoroso touro expelisse um verraqueo (semelhante ao “grunhir do porco” que indicia “enfado”), era de caras o toque de finados da pega, o fim da bandarilhada. Um touro enfadado é fado que não se deseja a nenhum dos gladiadores; nem ao homem que desesperadamente incita o animal, nem ao touro que nega a sua natureza cedendo à apatia. Deste modo, nem a cultura justifica a quebra na receita fiscal, nem a barbárie se concretiza de forma a justificar a indignação de uns e a aclamação de outros.

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