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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A NARRATIVA DE BARROSO

Abril 09, 2014

J.J. Faria Santos

 

                                                 Fonte: Vintage Printable

 

Eu amo Portugal.O povo português é o melhor que há em Portugal. Eu sempre fiz tudo para  ajudar o  meu país.  A começar pelo apoio ao então Governo português na tentativa de fazer passar o PEC 4. Tentámos evitar que houvesse em Portugal o anátema do resgate.

A Europa não é o problema, a Europa é parte da solução. A crise foi gerada por dívidas públicas muito grandes, que são uma responsabilidade dos governos nacionais. Não sei bem como, mas a legislatura que eu inaugurei em 2002 terminou com um crescimento da dívida em termos absolutos de mais de dezassete mil milhões de euros. Não sei bem como, mas as contas do Expresso  dizem que o peso da despesa pública no PIB ajustada do ciclo económico cresceu três vezes mais no meu consulado concluído pelo Santana Lopes que no anterior Executivo de Guterres. Não sei bem como, mas o Público  diz que de 2002 a 2004, entre transferências de fundos de pensões, perdões fiscais, titularizações de créditos, concessões de portagens e a venda da rede fixa da PT, ultrapassou-se os oito mil milhões de euros em receitas extraordinárias. Que querem que eu diga? Mea culpa? A política é a arte do possível e a ciência da sobrevivência. A responsabilidade, lamento ter de o dizer, foi, sobretudo, daquelas duas pessoas que passaram pela pasta das Finanças nessa altura, que representam uma certa classe média ou média-alta, e que, agora, assinaram um manifesto onda surge gritantemente em destaque a palavra que Portugal não pode pronunciar.

Eu nem queria dizer isto. Prezo a confidencialidade e a discrição. A modéstia assenta-me quase tão bem quanto as minhas lendárias qualidades de estratego político (que os meus inimigos confundem com ambição desmedida e carácter maleável). Mas a verdade é que estive uma hora ao telefone a convencer a sra. Merkel a dar mais tempo para Portugal e a Irlanda pagarem a dívida e para a redução dos juros. A Comissão esteve sempre do lado do abrandamento das condições. Eu sei que não é esta a ideia transmitida pela comunicação social e pelos líderes de opinião…Aquele economista, o De Grauwe, até chegou a dizer que a Comissão Europeia era um agente da defesa dos interesses dos países credores…Haja paciência! De chinês!

Mas sabem o que me reconforta nesta recta final do meu mandato? Os resultados extraordinários que Portugal tem tido, a correcção dos desequilíbrios externos é fantástica. Não obstante, eu já disse várias vezes ao primeiro-ministro que há limites para uma certa política. Mesmo de tanga, há que proteger os pobrezinhos desta enxurrada de sucesso. Mas eu não quero entrar na luta política…

Já na luta institucional…Já vos contei das três vezes que chamei o Vítor Constâncio a São Bento a propósito dos rumores acerca do BPN? Há quem diga que ele se preocupou mais em estimar défices que exercer a supervisão…Ele que se atreva a negar-me três vezes! Não é por acaso que todos os dias faço, para memória futura, o registo dos factos do dia anterior. A História assim o exige. Ocorre-me agora que terei de consultar esses registos para verificar se obtive esclarecimentos acerca do BPN nos meus anos de liderança do PSD, quer do Dias Loureiro que presidia ao Conselho Nacional, quer do Joaquim Coimbra que integrava a Comissão Política.

Mas tudo isto é passado, matéria para saudosistas incorrigíveis e arqueólogos de incoerências prontas a usar como armas de arremesso para destruir ambições ou alimentar ressentimentos. O que me interessa é o futuro.

O que eu acho que se devia pensar em Portugal é o próximo Presidente da República ser apoiado pelas principais forças políticas. Para uma situação de excepção nada como um homem normal com apoios excepcionais. Eu, francamente, não tenho qualquer intenção de ser candidato a Presidente. Nem pensar!...A menos que… não!...Enfim, só numa situação extrema (que não consigo antever, nem com toda a minha capacidade de estratego presciente) que justifique um sacrifício pela nação. Porque eu amo Portugal. Só isso me faria inflectir a decisão. A firmeza da minha decisão é tal que eu poderia apelidá-la de irrevogável.

Vou reler o The Sleepwalkers, continuar a dar entrevistas ao Ricardo Costa em cenários ricos em arte contemporânea, ter uma pausa, pensar, reflectir. Dito assim, até parece que durante o meu mandato não pensei, nem reflecti. Os meus inimigos até podem insinuar que a sra. Merkel fazia isto por mim. Mas, como diria o Octávio Machado, vocês sabem do que é que eu estou a falar… Se for mesmo necessário alguém excepcional com apoios excepcionais, se o meu país em desespero de causa me recrutar, não conseguirei dizer não. Porque eu amo Portugal. E amo a coisa fantástica que há em Portugal: o povo português.

 

(Apesar de este ser um exercício de ficção, os excertos em itálico correspondem a declarações de Durão Barroso constantes da entrevista concedida ao jornal Expresso, publicada no passado dia 29 de Março.)



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