A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA DIREITA RADICAL
Fevereiro 01, 2026
J.J. Faria Santos

Há um novo rosto a protagonizar o combate ideológico da direita radical. Em vez de declarações tonitruantes, proferidas em tom descabelado (literal e figurativamente) e com a petulância de quem profere uma evidência, oferece proclamações suaves, nas quais à exibição dos pergaminhos académicos prefere o doce ronronar do pretenso senso comum, aditivado pela concepção de que “a nossa sociedade ainda tem um lado pouco democrático sob uma enorme hegemonia cultural da esquerda”, e de que o “centro-direita está colonizado pela esquerda”. Só mesmo ignorando a “colonização” da academia pela “ultradireita” (como a definiu Pacheco Pereira), o domínio das redes sociais pela direita radical e o papel de meios de comunicação como o Observador, é que alguém ainda pode invocar o chavão da “hegemonia cultural da esquerda”. Ainda que o faça com o glamour, o leve sorriso e a suavidade da direita caviar.
Teresa Nogueira Pinto faz questão de dizer que tem “amigos de esquerda” (à semelhança de certos figurões que dizem que até têm amigos “pretos”?), assegura que não é “saudosista do Estado Novo” e reclama poder defender que “só as mulheres menstruam sem ter medo de ser cancelada ou até mesmo presa”. Reconhece-se na trilogia “Deus, pátria, família”, porque é “uma ideia muito simples, e muito bonita: a humanidade é, na sua larga maioria, composta por pessoas com fé, com uma pátria, e uma família. Vivemos, e realizamo-nos, enquanto portadores de um legado e em lealdades concêntricas”. Que o discurso e a prática da direita radical entre em choque com a doutrina social da Igreja ou com as proclamações do Evangelho parece não perturbar a sua fé. Muito menos que o Papa Francisco, em carta aos bispos católicos dos EUA, tenha censurado as “lealdades concêntricas”, escrevendo: “Os cristãos sabem muito bem que só afirmando a dignidade infinita de todos é que a nossa própria identidade como pessoas e como comunidades atinge a sua maturidade. O amor cristão não é uma expansão concêntrica de interesses que pouco a pouco se estendem a outras pessoas e grupos”.
A sua investigação académica tem-se centrado na dissecação das dinâmicas de poder e na validação nos regimes autoritários, bem como na legitimação do poder para além dos processos eleitorais. Não sabemos se existe correlação entre os seus pontos de vista estritamente académicos e a sua admiração por Ventura que, argumenta, “representa uma fórmula disruptiva” e que, à semelhança de “Trump, Meloni, Milei”, se afirmou “atirando pedras para um charco onde as águas estavam paradas”. (Há quem sugira que o charco é na verdade uma pocilga e cite uma célebre frase de Bernard Shaw.) Pode ser que, como Ventura, Nogueira Pinto defenda que o seu trabalho académico (“ciência”) é distinto das suas posições políticas. A disrupção é vista aqui como sinónimo de temeridade. “André Ventura é um homem corajoso”, afirma a ministra-sombra da cultura. (Mesmo que isso possa não parecer evidente pelo facto de ele se deslocar sempre rodeado de seguranças.)
Teresa Nogueira Pinto vota André Ventura porque, como escreveu no Expresso, o “dissenso” é a “maior garantia de liberdade e pluralismo” e o líder do Chega abala o “consenso sufocante”. A direita pode ser hegemónica nos principais centros de poder, mas não a direita de que ela gosta. Entre a “hegemonia cultural da esquerda” e as tergiversações da direita com adversativas, o cenário é, do ponto de vista dela, de cortar a respiração ou de liberdade condicional.
No entretanto, o corajoso Ventura vai cumprindo o seu papel de insuflar o populismo e de inflamar as massas, de pôr os grunts na linha da frente do combate pelo Portugal primeiro, fazendo o trabalho de sapa de minar o “sistema” (jargão que ele transpôs do comentário desportivo para a acção política), enquanto as elites da direita em estado puro (miraculosamente protegidas do vilipêndio) aguardam entre o divertido e o ansioso pela entrada em cena. Porque o intrépido Ventura vai precisar da massa crítica dessas elites, de uma equipa que transmita competência e capacidade de liderança, visto que um homem só pode inspirar, mas não chega para governar. Nessa altura, e só nessa altura, é que Teresa Nogueira Pinto deixará de estar em apneia. E mesmo que a democracia liberal fique ligada às máquinas, é bem provável que ela ache que “é uma ideia muito simples, e muito bonita”.
(As citações, quando não assinalada a origem, são da entrevista de Teresa Nogueira Pinto ao jornal Sol. https://sol.iol.pt/politica/noticias/teresa-nogueira-pinto-deus-patria-e-familia-e-o-novo-e-proibido-proibir/20260126/6977719d0cf2d7f14f26f69c)