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NO VAGAR DA PENUMBRA

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A ILUSÃO DA CERCA SANITÁRIA AOS RADICAIS INSANOS

Junho 05, 2022

J.J. Faria Santos

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“Houve uma altura em que se pensou que os partidos democráticos de direita se iriam demarcar dos extremismos, caracterizados pelo racismo, pela agressividade e combate aberto à democracia, mas o que se tem visto não é isso”, declarou, em entrevista ao Público, Paul Mason. Na verdade, incapazes de apresentar soluções dentro do seu quadro ideológico distintas das que ferem o Estado de direito e que seguem a via populista para explorar o descontentamento, os partidos da direita moderada acabam reféns do seu próprio desejo de maximizar as hipóteses de conquistar o poder ou de alargar as soluções de governabilidade. Neste contexto, alinham em acordos ou coligações com partidos da extrema-direita, ora confortados pela ilusão de os conseguir “desradicalizar”, ora sucumbindo ao pragmatismo com défice de princípios do usufruto do poder.

 

Mason, que não parece ter dúvidas de que “a invasão do Capitólio, se bem que fracassada, quis normalizar a insurreição armada como resposta à democracia liberal”, e que nota a existência de “uma espécie de sobreposição entre o populismo e autoritarismo de direita e o novo fascismo”, considera, ainda assim, que “não há para já o desejo de tomada de poder”. Para já, pode ser a expressão-chave nesta afirmação. James Pogue escreveu para a Vanity Fair de Maio um artigo intitulado Radicais livres, onde recolheu as suas impressões acerca de uma conferência que reuniu os representantes da nova direita americana. Como Pogue clarificou, não se tratava de uma reunião de apoiantes fanáticos de Trump (MAGA) ou de adeptos das teorias de conspiração do Qanon. Um dos presentes era J. D. Vance, autor de Lamento de Uma América em Ruínas e candidato a senador pelo Partido Republicano. Segundo Pogue, Vance descreveu numa entrevista a um podcast um cenário em que “ou o sistema se desagrega naturalmente, ou um grande líder terá de assumir poderes semiditatoriais”. Neste cenário, o papel da nova direita consistiria em preservar o possível e esperar pelo “colapso inevitável”. Defendendo de igual modo a “tomada das instituições da esquerda”, fazendo uma purga ideológica (“de-woke-ification program”), Vance acredita que Trump se vai recandidatar em 2024 e que deveria despedir todos os burocratas e funcionários públicos do Estado, “substituindo-os pela nossa gente”. E se o poder judicial o tentasse travar, ele deveria desafiá-lo e prosseguir o seu programa político.

 

Como Michiko Kakutani escreveu em A Morte da Verdade: “(…) a paranóia acerca do governo migrou de forma crescente da ala esquerda – que culpava o complexo militar-industrial pela Guerra do Vietname – para a ala direita, com trolls da direita alternativa e congressistas republicanos culpando hoje o dito ‘Estado profundo’ ou ‘governo sombra’ por maquinar contra o presidente.”  O presidente era Trump, o tal que parece ter assumido para si a profecia do exterminador implacável: “I’ll be back”. No entretanto, os seus sequazes preparam o terreno, o mesmo é dizer que o minam. Que fazer? A sugestão de Kakutani não é particularmente original: confiar nas instituições e na separação de poderes, apostar na educação e na preservação de uma imprensa livre e independente.

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