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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A IDEOLOGIA FLUIDA DE LUÍS MONTENEGRO

Julho 27, 2025

J.J. Faria Santos

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“Não estamos marcados por dogmas e ideologias” que possam condicionar a acção governativa, explicou Luís Montenegro, instando os deputados a não ceder ao “politiquês”. Só faltou dizer que não era político e que o seu partido (como o clube de futebol) é Portugal. E no entanto as prioridades do seu governo alinham-se com as políticas tradicionais de direita, com um forte pendor radical no caso das políticas de imigração. O próprio primeiro-ministro, mesmo que involuntariamente, assumiu isto mesmo ao declarar que “as propostas do Chega normalmente são um bocadinho mais radicais do que aquelas que temos preconizado”. De resto, veja-se as anunciadas mexidas na lei laboral e o rebranding da terminologia da disciplina de Cidadania (onde “respeitar questões relacionadas com a intimidade” e “interagir com base no respeito e na confiança” substituem, no reino da educação sexual como metáfora, a clareza da “saúde sexual e reprodutiva”), dois exemplos clássicos da agenda da direita.

 

Dir-me-ão que não existe aqui qualquer surpresa. Seguramente que não, e é até clarificador. Já não seria expectável uma colagem tão indecorosa ao Chega e às suas causes célèbres, a que acresce um atestado provisório de respeitabilidade, visto que o primeiro-ministro afirmou que o partido de Ventura “está agora a começar a mostrar maior responsabilidade”. Montenegro, que aposta no curto prazo, prossegue na senda da reconciliação com reformados e pensionistas ao mesmo tempo que alimenta os sonhos húmidos da fatia do eleitorado que se revê nos apelos avulsos à ordem e à autoridade.

 

Claro que Montenegro poderia tentar libertar a política governamental das amarras da superficialidade e do conjuntural, não fosse dar-se o caso de, provavelmente, no seu Governo, a concentração de ministérios no mesmo edifício ou a criação de uma linha telefónica para as grávidas serem rotuladas de “reformas”. Com a ministra “rija” (agora em tom delicodoce) a fracassar ostensivamente na saúde, a crise na habitação a agravar-se e a economia a arrancar 2025 com uma contracção do PIB, resta ao “Centeno de Rio” estimular o consumo com o alívio fiscal, enquanto todos esperamos sentados pelo crescimento robusto acima dos 3% . Recordo que Miranda Sarmento, em entrevista em Março de 2024 à Exame, afirmou que “com mais produtividade e com algum crescimento da população activa, não é difícil pôr a economia portuguesa a crescer acima de 3%”. Será conciliável o “crescimento da população activa” com o travão imigratório?

 

Luís Montenegro será, adaptando um conceito expresso por Gouveia e Melo (que se diz do “centro pragmático”), um representante da direita pragmática que, ao invés das proclamações sobre sexualidade e género, se mostra inclinada para uma ideologia fluida, sendo que, neste caso, o binarismo oscila entre o centro-direita e a extrema-direita.

 

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