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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A BELEZA DO CONSUMO QUE NOS CONSOME

Setembro 03, 2019

J.J. Faria Santos

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Não deveríamos já ter aceitado que a imperfeição é inerente à nossa condição humana? Porque escolhemos ser escravos de modelos de Beleza que assentam num totalitarismo da representação do corpo (tonificado, jovem, bem proporcionado), e utilizamos procedimentos que agridem esse mesmo corpo? Contentamo-nos com o efémero, imortalizámos os momentos em que teremos sido irremediavelmente belos, como se isso nos conferisse um estatuto de vedetas de cinema num filme inesquecível? Já para não falar nos que se entregam a operações plásticas em série, ou sucessivos procedimentos estéticos não invasivos, com o intuito de preservar uma juventude que fatalmente se esvairá. Muitas vezes este tratamento do corpo como um work in progress produz resultados tão disformes que é caso para nos interrogarmos se aquela determinada pessoa se reconhece naquilo em que se transformou. Onde começa a nossa compreensível e saudável necessidade de auto-estima e bem-estar e começa a obsessão patológica?

 

Em História da Beleza, Umberto Eco refere-se “à luta dramática entre a Beleza da provocação e a Beleza do consumo” que terá sido travada no século XX, com esta última a prevalecer nas últimas décadas, descrevendo-a como “os ideais de Beleza propostos pelo mundo do consumo comercial”, ou seja, os mass media. Eco escreveu que os meios de comunicação não apresentavam “nenhum ideal único de Beleza” e dava exemplos dessa diversidade: “a Beleza negra de Naomi Campbell e a nórdica de Claudia Schiffer”, “a mulher fatal de muitas transmissões televisivas ou de tanta publicidade e a rapariga água-e-sabão à Julia Roberts ou à Cameron Díaz” ou ainda a “Beleza máscula e refinada de Richard Gere” por comparação com “o encanto frágil de Al Pacino e a simpatia proletária de Robert de Niro”. O que é certo é que aquilo que o autor designou de “politeísmo da Beleza” pode ainda prevalecer, mas é indesmentível que um certo arquétipo de corpo magro e modelado permanece como ideal inatingível. Talvez fosse avisado meditarmos no facto do verbo consumir poder significar usar ou comprar, mas também corroer ou destruir.

 

Pode este desejo de supressão de defeitos existentes (ou a sua percepção enquanto tal) com vista a atingir um determinado padrão estético aproximar-nos da condição de “máquina”? Podemos imaginar um futuro não muito distante em que gozemos de uma maior longevidade, e em que a nossa mente seja actualizada como um software e a substituição de peças de hardware seja tão comum como um reboot? Ian McEwan, em Máquinas Como Eu e Pessoas Como Vocês, imaginou não uma aproximação do homem ao modelo máquina mas precisamente o inverso, e ficcionou um triângulo amoroso entre Miranda, Charlie e Adam, o “modelo altamente avançado de ser humano artificial” que o segundo adquiriu por 86 mil libras. Eram necessárias dezasseis horas para ficar completamente carregado e fazer download de actualizações de preferências pessoais. Este engenhoso e talentoso protótipo, bem como os restantes 24 exemplares, acabaram por ser confrontados com limitações inesperadas e angústias quase humanas. É que, como explica Alan Turing (resgatado à morte por cortesia da ficção) a Charlie, os humanos artificiais “não estavam devidamente equipados para compreender o processo de decisão dos seres humanos, a forma como os nossos princípios são pervertidos pelo campo de forças das nossas emoções, as nossas inclinações peculiares, como nos enganamos a nós próprios (…) Não conseguiam compreender-nos, porque nós próprios não nos compreendemos.”

 

Quando recebera Adam, e o retirara da embalagem envolvido em cartão e esferovite, Charlie ficara agastado com o conjunto de procedimentos necessários para o pôr em funcionamento. Confessa que “pensava que ele ia chegar já completamente ajustado. Definições de fábrica – um sinónimo contemporâneo de destino”. Já nós, humanos impenitentes, tendemos para a insatisfação com as “definições de fábrica”. Queremos ter as melhores competências para o jogo social. Pela mais banal das razões – queremos ser amados e admirados.

 

História da Beleza, direcção de Umberto Eco, tradução de António Maia da Rocha, edição Círculo de Leitores

Máquinas Como Eu e Pessoas Como Vocês de Ian McEwan, tradução de Maria do Carmo Figueira, edição Gradiva

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