Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O ALEXANDRE LUTA PELOS POBRES (E COMBATE A DITADURA)

Março 12, 2019

J.J. Faria Santos

IMG_20190310_145014.jpg

“Os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média e depois subirem se possível. É para isso que a gente luta”, declarou Alexandre Soares dos Santos ao Observador. Nunca é excessivo sublinhar este esforço de guerreiro, ainda para mais vindo de quem defende que “estamos numa ditadura do Estado. Nós vivemos em ditadura. Porque somos obrigados, para tudo, a ir ao Governo pedir uma licença”. Já na Polónia, rejubila Alexandre, é “toca para a frente”, “cumprindo a lei tudo anda”.

 

Pormenores de somenos serão certamente o condicionamento dos meios de comunicação e a interferência descarada no poder judicial perpetrados pelo governo polaco. Ou o facto do último relatório da organização Freedom House continuar a denunciar o pujante compadrio reinante nas instituições governamentais, e o patente desprezo pelos peritos e organizações da sociedade civil no processo de elaboração de leis, a que se soma uma escassa disponibilidade para acomodar alterações ou fomentar o debate. Talvez a maior vantagem que o sempre incisivo Alexandre encontre na ladina Polónia em relação à “ditadura estatal” portuguesa resida no facto de, para citar a Freedom House, apesar de ter “um movimento sindical robusto (…) procedimentos legais complexos dificultam o recurso à greve”. E, claro, parece óbvio que para a “transformação” dos pobres é indispensável que trabalhem.

 

Alexandre é “cristão” mas “discorda profundamente da Igreja Católica” na forma como ela trata os pobres. Tratar alguém com insuficiência de meios como um “coitadinho” que “tem que ser ajudado (…) é ajudá-lo a ser pobre”. Claramente, ele não acredita que a Igreja os “transforme” em classe média; essa é uma prerrogativa dos empresários visionários. Se esta noção parece paternalista, arrogante e até ofensiva é porque, como explicou António Guerreiro no Público (Ípsilon) da passada sexta-feira, referindo-se ao líder histórico do grupo Jerónimo Martins, “ele faz questão de afirmar que tem nas suas mãos os comandos do ascensor social (ou diz-se antes elevador?), deixa bem claro que essa deslocação vertical é por ele controlada e tutelada”.

 

Mas como Guerreiro fez questão de notar, os pobres não aspiram à classe média (podem ser pobres, mas não são tacanhos, calculo); desejam ardentemente ser ricos. É que nesse patamar intermédio, diz o articulista, “ora são considerados ricos porque estão além do limiar dos pobres; ora são considerados pobres porque estão abaixo dos ricos”. Acontece que a frase do Alexandre tem a subtileza que a generalidade do seu discurso dispensa. Ele não cerceia a ambição do pobre. Ele pode “subir se possível”. E o que é que pode impedir essa ascensão? Com grande probabilidade, a resposta que os lábios do empresário não articularam só pode ser uma: a meritocracia. Se não for possível, fica em lista de espera. Mas não desespera, porque o Alexandre luta por ele. É uma missão de vida. Seguramente mais relevante que a doutrina social da Igreja.

CONAN, O BÁRBARO

Março 05, 2019

J.J. Faria Santos

conan_fest.jpg

O Império Romano apreciava a destreza militar dos bárbaros que serviam no seu exército. De resto, tratava-os com condescendência e desprezo. Quando eles assomaram às fortalezas, conquistadores não servos, viu-se como a sobranceria e o complexo de superioridade podem derrubar colossos. Também o império da música mainstream aprecia a rebeldia e a originalidade, desde que devidamente enquadradas pelos seus códigos e instituições. Quando essa originalidade instala uma estranheza disruptiva, e se mostra difícil de enquadrar nos modelos existentes, a reacção é imediatamente negativa.

 

A seu modo, Salvador Sobral introduziu a ruptura ao recusar os “fireworks”, apostando no despojamento, no classicismo dos arranjos e na sobriedade da interpretação, para dar corpo ao seu lema de que “música é sentimento”. O mesmo sentimento está presente na interpretação de Conan Osiris, facto que o aparato cénico (a máscara facial, os apetrechos digitais, a performance heterodoxa do bailarino) não oculta nem desvaloriza. Quando ele canta “Eu parti o telemóvel / A tentar ligar para o céu / P[ar]a saber se eu mato a saudade / Ou quem morre sou eu”, é irresistível imaginar se a espécie de dança xamânica que vemos no palco não será uma forma de exorcizar essa saudade. Quem decretou que ela tem de ser vivida no recolhimento e na passividade?

 

A imperfeita comparação que alguns têm estabelecido entre Conan e Variações não tem origem apenas nos maneirismos vocais ou no arrojo do guarda-roupa e da apresentação em palco. Há na ilusória simplicidade das suas letras e na aparente banalidade dos temas escolhidos uma intencionalidade que vai para além da função utilitária da linguagem. É por isso que em trechos como “Se a vida ligar / Se a vida mandar mensagem / Se ela não parar / E tu não tiveres coragem de atender / tu já sabes o que é que vai acontecer”, o que está em causa não é apenas um texto anódino a servir de base àquilo que Judy Cantor-Navas na Billboard apelidou de “mistura de estilos e sons que incluem fado, hip hop, techno, rock, kuduro e influências da musica árabe e de Bollywood”. Nestas breves linhas da letra de uma canção de três minutos pode vislumbrar-se o aviso e o incentivo, a necessidade de escutar e a disponibilidade para agir. No fundo circunstâncias de que a vida é feita, matérias sobre as quais um artista edifica a sua obra.

 

Imagem: foto de Pedro Pina (24.sapo.pt)

O ÚLTIMO DESFILE DE KARL

Fevereiro 26, 2019

J.J. Faria Santos

IMG_20190224_131933.jpg

A sua propensão para criar aforismos rivalizava com a sua prolífica produção enquanto designer de moda, podia ler-se no obituário do New York Times assinado por Vanessa Friedman, onde a autora considerava que o grande mérito de Karl Lagerfeld não consistira exactamente na “criação de uma nova silhueta”, mas sim no exercício da identificação da essência e consequente reinvenção de marcas tradicionais, sem receio de rupturas. Friedman recordou no artigo as palavras de Anna Wintour, em 2015, quando entregou a Lagerfeld um prémio atribuído pela indústria de moda britânica: “Mais do qualquer pessoa que eu conheça, ele representa a alma da moda: inquieta, visionária e vorazmente atenta à nossa cultura em mudança”.

 

Também José Cutileiro no Expresso destacou, para além da “vida profissional intensa”, a sua qualidade de “autor percutante de aforismos”, seleccionando alguns exemplos, como aquele em que Lagerfeld professa a sua paixão avassaladora pela leitura (“Tenho este prazer culposo de ler todo o tempo. A gente do Norte tem esta ideia estúpida, puritana, do dever e do trabalho”), que se materializou numa biblioteca de cerca de 300 000 volumes; ou aqueloutro em que expressa a sua sede de conhecimento desprovida de pretensiosismo (“Gosto de saber, saber tudo. Estar informado. Sou uma espécie de concierge universal, não um intelectual”). Não faltam mesmo tiradas com ressonâncias proustianas (“Porquê viajar, fazer milhares de quilómetros, quando da nossa janela podemos apreciar tudo”), ou proclamações que evocam Oscar Wilde (“Detesto ricos que vivem abaixo das suas posses”).

 

Como refere Vanessa Friedman no artigo citado, o livro de 2013 O Mundo Segundo Karl reúne os seus considerandos e boutades, incluindo afirmações como: “Eu sou muito terra-a-terra. Mas não desta terra”. Se conjugarmos esta afirmação com uma outra feita no documentário de 2008 Lagerfeld Confidential (“Eu não quero estar em carne e osso na vida das outras pessoas. Eu quero ser uma aparição”), construímos o retrato de uma criatura do outro mundo pronta para, qual espectro, permanecer na nossa memória como um ícone de elegância e sageza. Naquele exacto ponto em que uma aparente superficialidade convive com uma insuspeita densidade.

DA GERINGONÇA À SANTA(NA) ALIANÇA

Fevereiro 19, 2019

J.J. Faria Santos

Santana-Lopes-lider-1024x654.jpg

O tempo político acelera. Multiplicam-se as perplexidades. Desafiam-se ideias feitas, reconstroem-se perfis, deslocam-se as peças no tabuleiro de xadrez. 112 pré-avisos de greve foram entregues desde 1 de Janeiro, uma enormidade face aos 260 do ano transacto e às 85 greves sectoriais registadas em 2015. Mas, afinal, não foi este Governo que reverteu diversos direitos perdidos durante o consulado de Passos, e não tem ele o respaldo dos partidos de esquerda, o que supostamente corresponderia a um apaziguamento da conflitualidade social? O problema, explica Assunção Cristas ao Expresso, é que “isto está pior do que no tempo da troika”, designadamente na Saúde. E, no entanto, em 2018, o SNS contou com mais 601 médicos e 1252 enfermeiros, e o número de consultas aumentou, quer nos centros de saúde quer nas urgências hospitalares, apenas se registando um ligeiro decréscimo nas cirurgias.

 

A política é também a arte de gerir as expectativas, influenciar as perspectivas e alimentar as percepções. Os efeitos positivos de indicadores como o do défice ou da taxa de desemprego (um indicador de bem-estar social por excelência) não têm equivalência no comportamento do investimento público, aspecto que é estrategicamente relevado pela oposição (mesma a de direita, que tem tendência a desvalorizá-lo). A mera suspeita de que o travão no investimento possa ter reflexo na qualidade dos serviços públicos, contribuindo para a sua degradação, deve merecer a melhor atenção do primeiro-ministro, visto que podem estar em causa as funções sociais do Estado, que devem ser tão vitais para um Governo de esquerda quanto o são as funções de soberania.

 

A fazer fé nos estudos de opinião, os portugueses não se mostram particularmente solidários com as greves nas áreas da saúde, dos transportes, da justiça ou das finanças (68,7% não se identificavam com elas na sondagem de Janeiro da Eurosondagem para o Expresso), nem se mostram adeptos de movimentos inorgânicos do género “coletes amarelos” (na mesma sondagem, cerca de 75% dos inquiridos não encaram essas manifestações como “uma boa maneira de pressionar o poder político”). Tudo isto não significa que os portugueses se sintam plenamente representados pelo leque partidário existente e pelos restantes organismos agregadores de causas e interesses comuns. 

 

Em ano eleitoral, os partidos agitam-se. No mercado da representação política, a oferta aumenta mesmo que a procura soçobre face à descrença ou ao cinismo. O populismo cresce, viçoso ou disfarçado sob a capa da indignação. À esquerda, registam-se deserções em nome do purismo revolucionário abastardado; à direita, novos arautos do liberalismo pretendem aproveitar a alegada “esquerdização” do PSD, enquanto Assunção Cristas ocupa o palco repetindo pressurosa e persistentemente que é a líder da oposição. E até para o “menino guerreiro” a luta continua. A esperança em Santana Lopes, e na Santa(na) Aliança que ele propõe – a geringonça da direita, o bloco de direita – é tal que, imaginem, até a advogada da Madonna é vice-presidente do partido. Melhor do que isto, só a própria Madonna, embora eu não creia que o eleitorado conservador a aprecie assim tanto. Tirando, talvez, aquela facção que se rege pela máxima da virtude pública e do vício privado, para quem a hipocrisia é um sinal de inteligência e de competência social.

 

Há quem ache, porém, que convém não exagerar numa visão ideológica demasiado extremada da disputa eleitoral. Paulo Rangel asseverou em entrevista ao Expresso “que nunca disse que era de direita, mas do centro ou centro-direita”. E em algumas matérias, até chega ao “centro-esquerda”. Mas, para ele, esta discussão “não interessa aos cidadãos”, concluindo: “(…) as pessoas estão em casa a ver se o PSD está dois milímetros mais para a esquerda ou dois milímetros mais para a direita? Os cidadãos querem é respostas para os seus problemas.”

 

O que parece estar aqui em causa é, no mínimo, a explicitação do celebrado pragmatismo do PSD e, no máximo, a desvalorização da política enquanto instrumento ideológico de mediação dos interesses e aspirações dos cidadãos. Parece que a ideologia só é útil para servir de arma de arremesso contra o poder do dia (quando este não é o que Rangel apoia), quando de um púlpito se fazem acalorados discursos contra abstracções como a “asfixia democrática” ou a “claustrofobia democrática”.

 

Imagem: inimigo.publico.pt

O QUE IMPORTA É O INTERIOR

Fevereiro 14, 2019

J.J. Faria Santos

99-10.jpg

O que importa é o interior, dizem elas, voluptuosas em vestidos coleantes que esculpem a figura e descobrem a pele, idealmente na exacta medida em que a ousadia se furta à vulgaridade. O que importa é o interior, dizem eles, reluzentes no cabelo com gel, enquadráveis algures entre o protótipo do craque de futebol e o casual chic dos actores de telenovela. O cenário é o de um programa de televisão, sob a forma de um restaurante, onde se pratica a velha arte da promoção da compatibilidade amorosa, o jogo da sedução.

 

Os mais jovens gostam de arvorar maturidade; os mais velhos de anunciar a sua predisposição para a aventura. É compreensível que ambos exaltem o blind date como uma experiência nova a não perder. No século XXI ninguém quer perder experiências novas. Nem sequer os mais velhos. Em poucos minutos descobrem afinidades insuspeitas e reticências disfarçadas. Quase todos desabafam que o homem ou a mulher que lhes calhou não é o tipo de pessoa que idealizaram. O que importa é o interior, claro, mas a carne é fraca e neste repasto com pratos com nomes sugestivos os olhos também comem.

 

O jogo da sedução conta com diversos estímulos que vão desde inquéritos com perguntas sugestivas de escassa subtileza (do género, o tamanho conta?) até  danças sensuais (que não resultam em descalabro porque são redimidas pelo riso), passando por pudicas massagens que facilitam a aproximação física. Mas o que importa é o interior. E de que é que nós ouvimos falar quando se evoca o interior? Exactamente, das assimetrias regionais e da desertificação. Acham deveras que não se aplica a este contexto? Imaginem quantas pessoas não trarão dentro de si um deserto afectivo. Ou quantos e quantas sucumbem aos apetites propiciados pelo centro do seu corpo, perdendo o norte. Ou quantos quererão perder o norte e se recusam a deitar fora a bússola do que é socialmente considerado adequado.

 

A verdade é que o conhecimento do interior é uma tarefa que exige tempo, ponderação, persistência. O exterior é mais imediato, sensorial, artificioso. E não há jogo sem artifício. No final de contas, Oscar Wilde era capaz de ter razão quando escreveu que “ é preciso ser muito superficial para recusar julgar pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível”.

 

Imagem: Courtesy of Bert Christensen

OS BRAVOS DO PELOTÃO CAVACO

Fevereiro 11, 2019

J.J. Faria Santos

Florence_Nightingale.png

Cavaco diz que Costa nunca fez “voz grossa” contra os “poderosos que ganharam milhões”, nem em relação “aos milhões que voaram da CGD e de outros bancos, nem à corrupção”. É com tiradas deste teor que Cavaco, Ana Rita Cavaco, defende os descamisados enfermeiros da fúria do primeiro-ministro contra as greves “selvagens”. E a bastonária não faz a coisa por menos: a atitude do Governo empurra os profissionais de enfermagem para “situações de abandono de serviço”. Resta-nos esperar que os membros da Ordem dos Enfermeiros continuem empenhados em “não praticar voluntariamente actos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano”, bem como em “manter elevados os ideais da profissão, obedecendo aos preceitos da ética e da moral”.

 

Num perfil publicado na Visão em Outubro de 2017, sob o título “Justiceira ou Incendiária?”, fontes não identificadas do seu próprio partido, o PSD, classificavam-na como “reivindicativa, mas muitas vezes ultrapassa a fronteira e torna-se quezilenta”. Outros ainda reconheciam que “é movida por boas intenções, mas chega a um ponto e perde o bom senso”. Talvez inebriada pelo sucesso do crowdfunding, imbuída de fervor corporativista ou entusiasmada pelo combate político, Cavaco desdobra-se em louvores aos “bravos da greve cirúrgica”. A luta continua! Em nome de um aumento salarial para os escalões mais baixos da ordem dos 421 € e da reforma aos 57 anos com 35 anos de serviço. Que os danos colaterais atinjam os mais debilitados e os mais desfavorecidos não é circunstância que faça demover os bravos do pelotão Cavaco.

 

Imagem: Florence Nightingale

O IMPOSSÍVEL NEM SEMPRE É IMPROVÁVEL

Fevereiro 05, 2019

J.J. Faria Santos

goat.jpg

Porque é que nos prendemos tanto ao conceito de verosimilhança se a realidade desafia essa ilusão a toda a hora? Submetemos tudo a um critério que mede a aparência de verdade, mas essencialmente temos tendência a avaliar as probabilidades de algo ser, ou poder vir a ser, real, palpável, inscrito nas nossas emoções ou no nosso intelecto. Se considerarmos que a verdade é uma espécie de conformidade com a realidade, e que esta é mutável e surpreende a mais prodigiosa imaginação, talvez fosse prudente alterar a nossa propensão para sermos submissos perante a verosimilhança. Será mais gravosa a possibilidade de mergulharmos num lago de plácidas ilusões do que sermos submergidos por uma onda fétida de mentiras que a implausibilidade nos impediu de antecipar?

 

Em entrevista recente ao Expresso, instado a comentar uma afirmação anterior onde explicitara que a literatura por vezes renunciava à verosimilhança para chegar à verdade, Jonathan Littell respondeu à jornalista Luciana Leiderfarb nos seguintes termos: “A literatura não precisa da verosimilhança, a realidade sim. Conhece algo mais inverosímil do que Donald Trump? Era impossível imaginar que alguém como ele, que parece ter saído directamente de um reality show, seria hoje Presidente dos Estados Unidos da América. Era para lá do implausível, mas é a realidade, Por esta razão, a plausibilidade não me interessa muito. A verdade literária sim. É inteiramente de outra ordem.”

 

Se no acto de criação, se no universo da ficção, acolhemos de bom grado as pinceladas de fantasia e improbabilidade, porque não estender essa suspensão da descrença às cenas da vida real? Aprender a esperar o inesperado, mesmo com todo o seu potencial de disfuncionalidade, talvez nos ensinasse a questionar o que damos como adquirido e nos preparasse melhor para combater os que semeiam a discórdia e o conflito enquanto fingem ser os provedores dos nossos anseios.

 

Imagem: Courtesy of Bert Christensen

FAMA SHOW

Janeiro 29, 2019

J.J. Faria Santos

thumbs.web.sapo.io.jpg

E que tal transformar um potencial walk of shame num desfile na passadeira vermelha, exibindo luxo e carisma na companhia da it girl Georgina? Correram notícias que Cristiano Ronaldo solicitara uma entrada pela garagem? Deveras? Que crime seria desperdiçar tanto glamour, a menos que fosse para sublinhar o triunfo: uma entrada discreta para uma saída hollywoodesca.

 

Faltaria sempre o suspense. O spoiler era a anunciada sentença negociada: 23 meses de pena suspensa, uma subtracção de cerca de 19 milhões de euros ao seu património (peanuts!). CR7 confessou o crime mas no fundo não é responsável; confiou nos colaboradores (que fizeram planeamento fiscal e forjaram documentos a posteriori).

 

A coisa resolveu-se mais rapidamente que os 90 minutos de um jogo de futebol. Este árbitro ficou-se pelo cartão amarelo. Para cumprir as etapas do argumento cinematográfico standard, faltaria o caminho para a redenção. Mas como o castigo foi relativamente leve, e o crime não foi especialmente censurável aos olhos do português médio, em particular, e dos fãs universais, em geral, o circuito pedonal que o levou da limusina à barra do tribunal e vice-versa foi uma espécie de volta olímpica de consagração que dispensa qualquer penitência.

 

Restam as condecorações, que pressupõem um comportamento regido pelos “ditames da virtude e da honra”. Mas que podem estas excrescências éticas contra o rolo compressor da celebridade planetária? Dispensar-se-ia um exagero de humildade e contrição que o perfil desta celebridade não autorizaria. Mas um módico de discrição e sobriedade seria aconselhável, em vez de um clip directamente saído de um qualquer Fama Show.

 

Imagem: lifestyle.sapo.pt

O PODER DO PUDOR

Janeiro 26, 2019

J.J. Faria Santos

800px-Pessoacopo.jpg

Estamos mais familiarizados com a censura ao serviço do poder; agora tivemos a variante da censura ao serviço do pudor. Se não foi, pareceu. A Porto Editora omitiu três versos do poema “Ode Triunfal”, de Álvaro de Campos, num manual escolar, explicando a opção com o facto deles conterem “linguagem explícita” e se relacionarem com a prática da pedofilia”. Pediatras, professores, intelectuais e pedagogos de toda a sorte esgrimiram argumentos. Há quem defenda que jovens com 17 ou 18 anos não terão maturidade para compreender a referência à pedofilia, ou que a crueza da linguagem desviaria a atenção da “mensagem” do poema, situação agravada pela falta de tempo para o professor fazer a sua contextualização.

 

A ideia de que jovens com acesso quase irrestrito a plataformas como o Pornhub (para dar um exemplo extremo), com toda a sua oferta tão diversificada, devem ser poupados a versos que referem “automóveis apinhados de pândegos e de putas” é risível. Omitir versos de um poema a pretexto da sua “linguagem explícita” é uma opção hedionda, entre o puritano e o censório, e atentatória da integridade do poema e do poeta. Para citar um outro poema do autor, neste caso a “Saudação a Walt Whitman”: “Que nenhum filho da … se me atravesse no caminho / O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!”.

O MONTENEGRO É UM TIRO NO ESCURO

Janeiro 23, 2019

J.J. Faria Santos

mel_mc_shot_in_the_dark.jpg

Não tem a consistência ideológica de Miguel Morgado, a verve e o domínio da linguagem de Paulo Rangel, a experiência governativa e o peso institucional de Carlos Moedas ou a preparação intelectual de Jorge Moreira da Silva. Não se lhe conhecem propostas de acção que o diferenciem do actual líder do partido, nem ideias inovadoras. É por isso que Luís Montenegro é um tiro no escuro. O que é que ele tem que o coloca na pole position dos candidatos a desalojar Rio? A bênção do aparelho partidário (a nomenklatura das concelhias e das distritais), um discurso de oposição incisivo e combativo (que entusiasma os espoliados de 2015) e a chancela de qualidade marcelista (o actual Presidente da República, em 2016, viu nele “qualidades invulgares” que auguravam “grandes sucessos futuros”). O futuro chegará a galope?

 

Só que agora, depois de certificar a qualidade do Montenegro, Marcelo derivou para uma avaliação negativa da sua acção, ou pelo menos, do seu timing. A fazer fé nas “fontes de Belém” que continuam a jorrar no Expresso bastante informação acerca do pensamento e das motivações presidenciais, seria uma “loucura” o PSD entrar numa disputa pela liderança tão perto das eleições. Na verdade, o pensamento marcelista é ambivalente – por um lado ambiciona o reforço da oposição no sentido de uma federação do centro-direita, mas por outro teme os efeitos da instabilidade no PSD, receando que beneficie António Costa.

 

Porém, para Marcelo, mais importante que o Montenegro e o PSD é a sua própria popularidade. É por isso que as suas participações em programas televisivos são justificadas com a necessidade de “manter incólume a ligação ao povo”. Primeiro o povo e só depois as elites. Cáustico como quase sempre, Vasco Pulido Valente escreveu no Público que o telefonema para Cristina Ferreira foi um exemplo de “cortesias de colegas”. E que “quando sair de Belém, o destino natural deste Presidente do Povo é um programa da manhã.” Já uma “fonte próxima” foi de uma candura assinalável em declarações ao semanário Expresso: “Ele pode ter levado pancada de 30 000 pessoas mas a audiência do programa foi de 500 mil. Não foi mau negócio.” Quero acreditar que o Presidente da República tem uma noção bastante mais sofisticada dos negócios do Estado, e um sentido elevado da nobreza do cargo que só perde com elucubrações deste teor. Mesmo que provenham de uma deslumbrada “fonte próxima”.

 

Ilustração: "A Shot in The Dark" de Mel McCuddin

(www.theartspiritgallery.com)

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D