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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O NOSSO HOMEM NO PALÁCIO DE BELÉM

Junho 10, 2019

J.J. Faria Santos

 

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“O melhor da vida está em provocar um facto, tirando a Deus a prioridade”, escreveu Agustina Bessa-Luís em A Ronda da Noite. Eis uma asserção que certamente merecerá a concordância do consumado criador de factos políticos chamado Marcelo Rebelo de Sousa. Falando em inglês, na FLAD, assumiu a sua eterna vocação de pundit, relegando para um plano secundário a discrição e a subtileza que o cargo que ocupa poderia justificar. Claro que sempre me pareceu que a sua magistratura se tem caracterizado por um desejo irreprimível, por uma tensão latente entre o sentido de Estado e a volúpia de pôr o Estado em sentido a tentar adivinhar os seus próximos passos.

 

 É “muito preocupante” a situação da direita, disse ele, para acrescentar: “Com um governo forte de centro-esquerda e uma oposição de direita fraca, cabe ao Presidente, não equilibrar, porque não pode ser oposição a nenhum governo, é claro, mas ser muito sensível e sentir que é preciso ter um equilíbrio no sistema político.” Clarificando: não cabe ao Presidente “equilibrar”, compete-lhe “sentir a necessidade de equilíbrio”. E quem irá promover esse “equilíbrio” senão ele? Está inaugurada uma nova etapa de uma presidência marcadamente sensorial: depois do tacto (os afectos) e da estimulação visual (as iconográficas selfies), entramos agora no território das convicções mais íntimas e das avaliações de grande precisão.

 

Para completar a análise à conjuntura política, não deixou de teorizar acerca da influência que o resultado das eleições legislativas poderá ou não ter na decisão de se recandidatar. Pelo menos é um factor menos esotérico que alguns previamente avançados, tais como a permanência da Web Summit em Portugal ou a realização das Jornadas Mundiais da Juventude em 2022 (presumindo que “não há ninguém em melhores condições para receber o Papa”). Não deixa de ser irónico que ao tentar dar conforto à área política de que provém Marcelo tenha causado desagrado à liderança dos partidos que a compõem, mas presumo que isso tenha constituído para ele um prazer pouco secreto. Nesta fase, é difícil “equilibrar” o anseio de sucesso da direita partidária com o seu desígnio pessoal de ser reeleito com uma percentagem de votos recorde.

 

São José Almeida escreveu no Público que ele se assumiu como “líder natural da direita”. E o institucional Expresso opinou em editorial que o Presidente pôs “o carimbo a oficializar o óbito” da direita, considerando que “um árbitro não pode anunciar o resultado antes do apito final”, para mais adiante reconhecer o óbvio: que ele se posicionou como “jogador”. Quem na direita se sentirá representado por Marcelo de forma a exclamar: “Este é o nosso homem em Belém”? Suspeito que é questão que não o angustia. No meio das mil e uma conjecturas com que a sua lendária inteligência preencherá as altas horas de ócio, decerto tomará como suas as palavras que Shakespeare colocou na boca de Marco António: “Agora é deixar correr. Discórdia, estás a caminho. Toma o rumo que quiseres.”

 

Imagem: Wikimedia Commons

SINDICATOS. ORDENS. DESORDENS

Junho 04, 2019

J.J. Faria Santos

 


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É a lei do mercado. Só a PSP conta com 17 sindicatos (recorde da administração pública). O mais recentemente criado contava em Abril com 27 agentes, todos dirigentes do Sindicato e, portanto, com direito a folgas para a actividade sindical. Segundo contas do DN, já serão mais de 3700 dirigentes e delegados sindicais a auferirem mais de 36 000 dias de folgas. Com tamanha competição pelo troféu da melhor capacidade reivindicativa e maior legitimidade representativa (que o número de associados confere), como estranhar que declarações que causaram “incómodo” ou foram consideradas “inoportunas” tivessem levado a que o vice-presidente da ASPP, Manuel Morais, renunciasse ao cargo. E que afirmou Morais? Que na sociedade e na polícia existe “preconceito étnico”. Como tratou logo de explicar o presidente da ASPP, Paulo Rodrigues, “a malta não sente que haja racismo na polícia”. A “malta” enfurece-se com a admissão de que na polícia existem “preconceitos étnicos”, mas nem pestaneja quando são relatadas numa sentença do Tribunal de Sintra expressões proferidas por agentes do género: “ainda por cima és pretoguês” ou “Pretos do caralho, vão para a vossa terra!”.

 

Para além dos sindicatos, também as ordens se esmeram na defesa dos seus membros. E a interpretação da lei é suficientemente fluida para que a proibição “de participar em actividades de natureza sindical” não seja impeditiva de que um dirigente de uma ordem possa reunir com um sindicato ou apoiar uma greve. Veja-se o exemplo da sempre activa e reivindicativa Ana Rita Cavaco, que combina um estilo combativo e incisivo com atitudes algo destemperadas. Relembre-se o episódio do mês passado, relacionado com uma sindicância da IGAS, onde a bastonária foi acusada de pontapear a porta de um gabinete, ter proferido “expressões injuriosas” contra os inspectores e sugerido ter estado sequestrada uma funcionária que para a IGAS prestou declarações de forma “colaborante e tranquila”. E, cereja no topo do bolo, ter-se-á apresentado “acompanhada por um cão preto sem trela”. Nos dias seguintes, Cavaco tratou de mostrar nas redes sociais como o dito canídeo é fofo e inofensivo. Para ela, pelo menos. Perante esta patente instrumentalização de um ser senciente, é caso para dizer: onde é que estava o PAN?

 

Imagem: Manuel Morais

O PODER DE UMA BOA HISTÓRIA

Maio 28, 2019

J.J. Faria Santos


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“Não há nada mais poderoso no mundo do que uma boa história”, disse Tyrion Lannister algures no episódio final da Guerra dos Tronos. E acrescentou que nenhum inimigo a poderá derrotar. Para uma série que se esmerou na exibição da violência e da brutalidade, mesmo que por vezes em nome de nobres sentimentos ou justas ambições, esta fé ilimitada no poder de uma narrativa superlativa não deixa de ser singular. Claro que uma boa história não tem de ser necessariamente exemplar e eticamente inatacável; muitos vilões e muitas criaturas de baixa reputação protagonizaram histórias grandiosas. Muitas vezes, aliás, a bondade não produz grandes ratings. Nem sequer obras artisticamente relevantes.

 

A série baseada nos livros de George R.R. Martin (que se viriam a revelar insuficientes para a alimentar) acabaria por ser um êxito planetário de audiências ao mesmo tempo que reunia os favores da crítica. Como terminar de forma magistral uma “boa história”? Eis um propósito que fatalmente teria de gerar insatisfação. Judy Berman, na Time, lamentou que na temporada final a aposta nos efeitos especiais suplantasse a “energia aplicada no desenvolvimento dos personagens e dos conflitos ideológicos” nas temporadas prévias. Berman notou ainda que a Guerra dos Tronos atingiu um elevado “patamar de significado cultural” e aí se manteve, mesmo quando a “qualidade do argumento declinou”.

 

Já Sarah Larson, escrevendo na edição online da New Yorker e referindo-se a Jon Snow, Arya e Sansa interrogou-se: “Porque é que estas almas nobres e complexas têm de acabar sozinhas, algumas relegadas para reinos distantes?” Como espectador moderadamente entusiasmado pela série, da qual nem sequer vi todas as temporadas (sacrilégio!), confesso a minha atracção pela alma negra e complexa de Cersei Lannister. Por mim, teria direito também ao exílio na solidão (que se associa comummente ao poder, mas também à perda dele), porém, admito que haja uma certa justiça poética no facto de perecer na companhia do amor proibido, depois de um percurso de vida que foi da humilhação pública à ostensiva exibição de um impiedoso poderio. O seu último frame mostra um rosto no meio dos escombros. Intacto. Derrotada pelo desabar da fortaleza que a protegia, Cersei escapou, todavia, ao cativeiro ou à morte infligida directamente pelos seus inimigos. As almas guerreiras não se deixam capturar pelos desafiadores vitoriosos.

 

O FUTURO SEGUNDO DORIS DAY E MADONNA

Maio 21, 2019

J.J. Faria Santos

 

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Quando é que o futuro perde a sua aura de oportunidade e ambição para se transformar numa espécie de sentença a prazo? Bom, talvez seja demasiado pessimista colocar a questão nestes termos. Digamos que, a partir de certa altura (porventura quando o futuro potencial é temporalmente mais curto que o passado), o comum dos mortais entra em modo de gestão, privilegiando o conforto do adquirido em detrimento de expectativas exigentes que um esforço adicional poderia alcançar. E aqui a palavra-chave é o verbo “poderia”. O condicional (surpresa!) condiciona-nos. E o risco de falhar numa circunstância com tantos factores desconhecidos conduz a nossa indecisão para o território da inconsequência.

 

Seria mais avisado se seguíssemos o conselho de Doris Day. Obteríamos como recompensa a redução acentuada da angústia. Como ela explica em “Que sera, sera”, não nos compete adivinhar o futuro (“the future’s not ours to see”). O enquadramento temporal era o da década de 50 do século passado, em pleno período do pós-guerra e antes da disrupção da contracultura dos sixties. As inquietações que a canção tenta dissipar com o seu desprendido refrão são intemporais: o desejo de beleza e prosperidade (“Will I be pretty? Will I be rich?”) e o receio que o arrebatamento amoroso feneça (“I asked my lover, what lies ahead? / Will we have rainbows, day after day?”). Admito, porém, que esta opção se pareça demasiado com o vogar ao sabor das ondas, um clamoroso pecado mortal numa era em que a todos se pede ambição e iniciativa e qualquer pausa para reflexão se parece demasiado com inacção.

 

Por seu lado, Madonna, no recente “Future” em parceria com Quavo, alerta-nos para o facto do acesso ao futuro estar dependente de uma espécie de numerus clausus que levarão em linha de conta a nossa capacidade de aprendizagem com os erros do passado (“Not everyone is coming to the future / Not everyone is learning from the past”). Num tema que prescreve abertura de espírito e a necessidade de estarmos atentos aos sinais que o quotidiano nos apresenta, prega-se a importância da reinvenção sob a forma do renascimento. Portanto, se num momento de introspecção lhe desagradar aquilo que percebeu ter sido, aniquile-se e renasça (“Don't like the person in your past, so you let 'em die”). Eis um conselho coerente com o percurso artístico dela. Mas poderá esta acção resultar quando aplicada à vida trivial de cada um de nós? Acima de tudo, o importante é que sejamos nós a deter o poder de decidir (“Your future is bright /Just don't turn off the light”). Seja qual for a nossa decisão, nem tudo é verdadeiramente irremediável. Como dizia o outro, a vida é como os interruptores: umas vezes para cima e outras para baixo.

JOE? NÃO. JOKER, BABE!

Maio 13, 2019

J.J. Faria Santos

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Fomos levados a acreditar que ele levava uma vida faustosa, se gabava dos lucros da sua herdade e abria as portas da sua luxuosa casa às câmaras das televisões. Quiseram acender em nós o rastilho da indignação, acenando com os 962 milhões que três das suas empresas devem aos bancos. E, afinal, o homem declarou orgulhosamente que pessoalmente não tem dívidas. E, certamente a contragosto, exibiu as suas credenciais de filantropo (“como cidadão tentei ajudar os bancos”) em vias de requerer o estatuto de lesado (“O BCP foi o maior desastre que tive na minha vida.”) E não levem a mal se a narrativa dele tiver falhas ou incongruências. Como ele explicou: “A minha memória é razoável, mas eu sou disléxico e tenho problemas, às vezes, em certas coisas.”

 

Mais importante que tudo o resto é esta enfática proclamação de Joe Berardo: “A arte, para mim, é a minha vida.” Enganou-se quem julgava que ele era apenas um coleccionador. Ele é um verdadeiro artista (e todos sabemos como os artistas são desprendidos com o dinheiro…), a última revelação da stand-up comedy. E as piadas, babe, são à nossa custa. Literalmente.

 

Imagem: Foto de Joe Berardo (António Cotrim - Lusa); foto de Jack Nicholson como Joker (www.listal.com)

A ESPERA E O OLHAR

Maio 07, 2019

J.J. Faria Santos

 

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No rosto da mulher que espera parece haver um certo agastamento, ou pelo menos aquela usura que o tempo traz e que a resignação não consegue disfarçar. Tem o aprumo digno das pessoas remediadas ou no limiar da pobreza, aliado a uma aura de cansaço. Convivem nela a reivindicação da dignidade de que não prescinde com a permanente necessidade de autojustificação que a sociedade lhe impõe. Porque para uma faixa significativa dos seus concidadãos, a pobreza só pode ser uma espécie de deficiência social. Por conseguinte, dedicam à mulher que espera o transporte público e ao homem mais jovem que a acompanha (ligeiramente afastado, como se quisesse assinalar uma certa autonomia na dependência, ou uma diferença de género que lida mal com a incapacidade de protagonizar o papel tradicional de garantir o sustento da família) uma pena relutante. Uma pena ambígua, que tanto se aproxima da empatia como se deixa arrastar para o território da punição. Como se ser pobre fosse uma escolha, uma opção de vida.

 

Lucia Berlin terá descrito de forma notável o que porventura representa esta espera num parágrafo do seu conto Manual para mulheres de limpeza: “O autocarro está atrasado. Passam carros por nós. As pessoas ricas em carros nunca olham para as pessoas na rua, de todo. As pobres olham sempre…na verdade, às vezes parece que estão apenas às voltas a olhar para as pessoas na rua. Já o fiz. As pessoas pobres esperam muito. Segurança Social, filas para o subsídio de desemprego, lavandarias self-service, cabines telefónicas, urgências, cadeias, etc.” (tradução de Rita Canas Mendes, edição Alfaguara)

 

MORO NUM PAÍS TROPICAL

Abril 30, 2019

J.J. Faria Santos

 

IMG_20190428_173519_v2.jpgAcusado pelo ex-primeiro-ministro português José Sócrates de ter sido um “activista político disfarçado de juiz”, Sérgio Moro replicou que não debatia “com criminosos pela televisão”. Parece que a liberdade de linguagem do ministro da Justiça é consideravelmente mais alargada que a do juiz, pois citando o colunista Daniel Oliveira “Um magistrado que chama criminoso a alguém que ainda nem sequer entrou na sala de um tribunal é um magistrado que despreza o processo judicial.” O mesmo homem que afirmou repetidamente jamais aceitar qualquer cargo político (e que agora disse ao jornal Expresso não ter “pretensões” a concorrer à Presidência), é o mesmo que não vislumbra qualquer incongruência na sua actual posição. É que ele não é um político; é “um técnico, um juiz que está no Governo”.

 

Toda a tramitação do processo Lava-Jato e a condenação de Lula foram vistas por observadores independentes como contaminadas pela fragilidade das provas e por um voluntarismo judicial a raiar a obsessão ideológica, pelo que Moro, na citada entrevista, fez questão de frisar que as suas decisões “foram e estão a ser confirmadas pelos tribunais superiores”. E, no entanto, questionado se se arrependia de algo, adianta, algo enigmaticamente, “que talvez tivesse sido mais rigoroso”. Parece que o rigor não é a maior das suas qualidades, ou então sacrifica-o às suas convicções inabaláveis e pré-definidas.


Manuel Carvalho, director do jornal Público, estranhou o silêncio em Portugal perante uma afirmação desta gravidade. Para ele, “o está em causa é muito mais do que a ofensa a um ex-primeiro-ministro sob suspeita. É um princípio básico do Estado de direito que foi atacado. É a credibilidade do sistema judicial português que é atingida – há um ‘criminoso’ à solta, protegido pela impunidade? Logo, é um abuso de um ministro de um Governo presidido por um político cujas virtudes democráticas e valores humanistas se desconhecem por não existirem.”


Sérgio Moro diz na entrevista ao Expresso que Bolsonaro “eventualmente fez algumas declarações que não foram as melhores”. E que a culpa também foi do “sensacionalismo da imprensa brasileira e mundial” (Fake news em versão brasileira…). Eis o que se pode chamar um autêntico Lava-Jato político, uma forma ao mesmo tempo infantil e grosseira de desculpar, banalizar e branquear as barbaridades que pontuam o currículo do Presidente eleito do Brasil.


Algures no conhecido tema “País Tropical” canta-se: “Eu posso não ser um band leader / (Pois é) mas assim mesmo lá em casa / Todos meus amigos, meus camaradinhas me respeitam / (Pois é) essa é a razão da simpatia / Do poder, do algo mais e da alegria”. É caso para dizer que um juiz-ministro com vocação para justiceiro pode contentar-se com o apoio clubístico dos “camaradinhas”, mas tal condição é insuficiente para quem quiser aspirar à grandeza de um serviço público exemplar.

 

O QUE FAZEMOS COM A LIBERDADE

Abril 22, 2019

J.J. Faria Santos


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Na era dos influencers, das notícias virais que muitas vezes rimam com banais  (contra as quais ninguém está inoculado), das fake news (que requerem a nossa vigilância e o nosso activismo) e do mérito medido pelo número de seguidores (há algo de sinistro nesta designação, que tanto pode nomear a admiração mais ou menos acéfala como a perseguição maníaca), que fazemos com a liberdade? Entregamo-nos à volúpia da disrupção, esgotamos todas as possibilidades de testar os limites do que podemos fazer (só porque sim), ou calibramos esse desejo (e esse direito) com uma dose de bom senso e civismo?

 

Proliferam no espaço público formas das pessoas se organizarem e se exprimirem. Reduziram-se os mecanismos de censura, mas também se enfraqueceram os meios de intermediação e validação. Padrões de probidade, decência, competência e eficácia que sempre preferimos discernir nos líderes que escolhemos, foram agora trocados, em algumas nações, por uma linguagem radical, muitas vezes estranha à verdade e ofensiva da nossa dignidade humana.

 

Sim, às vezes é preciso dizer não, desobedecer, questionar a ordem estabelecida, instalar a desordem criativa, mas é imperioso resistir às sereias do poder. O que é tremendamente difícil, sobretudo para quem, por exemplo, partindo de reivindicações de alcance incerto se alcandora aos píncaros de conseguir paralisar um país. O povo é quem mais ordena, mas a auto-regulação é crucial. E as elites não são dispensáveis.

 

Mesmo quando nos falham. Como foi o caso da família de banqueiros, austera e tradicional (com o gosto de “brincar aos pobrezinhos”), mas disfuncional e permeável a “liberalidades” de construtores civis e vulnerável ao charme do off-shore. Os militares da foto, que fizeram parte do contingente que ocupou a Baixa de Lisboa nos dias da revolução, parecem proteger o então denominado BESCL. Quem nos protegeu do BES? A liberdade não nos defendeu das liberalidades.

 

Mas convém que não nos deixemos iludir. Nem que aceitemos o condicionamento da liberdade em favor de uma inexpugnável segurança (inalcançável) ou de uma branda repressão mascarada de mirífica ordem. Robert Fishman, sociólogo e cientista político norte-americano, declarou, em entrevista ao Público, que “Em Portugal, a democracia nasceu de uma fusão rara de revolução social, mudança cultural activa e democratização convencional.” As preocupações sociais e a redução da desigualdade devem continuar a ser um desígnio central da nossa democracia consolidada, e demonstrar capacidade de resistência face a teorias económicas radicais que toleram a sua fragilização como dano colateral do crescimento económico. “Brincar aos pobrezinhos” é de um mau gosto assinalável; brincar com os pobres é um atentado à dignidade humana. E à liberdade.

 

MARCELO ÜBER ALLES

Abril 16, 2019

J.J. Faria Santos

 


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Ele é um eminente constitucionalista. Para quê recorrer ao Tribunal Constitucional? Ele acha imperioso regular as nomeações familiares para a Presidência da República. O Presidente não tem iniciativa legislativa? Perdão! Iniciativa (e energia) é coisa que não lhe falta. E ele lá é político para se inibir com as limitações constitucionais. Que ele própria interpreta (Tome lá, senhor primeiro-ministro, um anteprojecto de lei que eu redigi! E que eu garanto, desde já, promulgar!). Ele estará apenas a redefinir as fronteiras do semipresidencialismo. É a híper-magistratura de influência, que pode ir dos discursos em que ensaia demissões de ministros até às declarações em que aponta que partidos devem aprovar as leis de bases, passando pelas pressões (benignas, claro) sobre a Justiça (Tancos está a demorar uma eternidade!).

 

Parece que, inicialmente, o Presidente propunha a proibição de nomeações até ao sexto grau (situação que Ana Sá Lopes no Público sugeria poder obrigar “à contratação pública de especialistas em genealogia”), mas, segundo o Expresso, a “conversa com o primeiro-ministro levou Marcelo a recuar” para o quarto grau (primos). Terá faltado ponderação à formulação inicial ou a cooperação institucional com o “optimista irritante” resultou num módico de bom senso? (O próprio Marcelo já terá analisado esta questão, do ponto de vista dos dois intervenientes.)

 

O Presidente inscreveu-se na vida dos portugueses muito para além da sua função institucional. Ele é o provedor dos afectos, o pronto-socorro emocional. Parece omnipresente, presumem-no omnipotente. Uma presunção que ele alimenta, mesmo por omissão. Desdobra-se em missões de proximidade (uma inesperada expedição a um velório para “dar os sentimentos”, uma inopinada audiência concedida a uma mulher que não quer morrer sem o conhecer) e em confidências de pé de orelha (acerca dos “ricos” que conheceu). Está todos os dias num ecrã perto de si, preparado para o imortalizar numa selfie e para se imiscuir na sua iconografia pessoal. Há quem lhe chame populismo benigno. Ele só quer ser amado. Ele não é totalitário, tem é a vertigem do totalista. No jogo da política quer recolher todos os pontos. É como um maestro célebre que presume saber tocar todos os instrumentos da orquestra e não nutre particular apreço pelos solistas.

 

FAMILYGATE - CONTRIBUTOS PARA A CAVACOLOGIA

Abril 08, 2019

J.J. Faria Santos

 

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O supra-sumo da gestão dos silêncios regressou à arena mediática com estrondo. Inadvertidamente, acabou por confirmar a sugestão do actual primeiro-ministro de que ele tem uma relação problemática ou selectiva com a memória. “Fui verificar a composição dos meus três governos durante os dez anos em que fui primeiro-ministro e não detectei lá – espero não me ter enganado – nenhuma ligação familiar.”, disse Cavaco Silva. Não obstante a surpreendente modéstia (a simples admissão da possibilidade de ter laborado num equívoco é assombrosa), o teor da proclamação é devastadoramente errónea. Sobretudo para alguém que sempre reclamou para si as qualidades inerentes ao estudo minucioso dos assuntos e ao rigor das afirmações.

 

Uma outra declaração, também na linha da neomodéstia, ajudará a explicar o faux pas. Disse ele: “Nos últimos dias aprendi bastante sobre as relações familiares entre membros do Governo e confesso que era bastante ignorante em relação a quase tudo daquilo que foi revelado (…)”. O que se pode deduzir é que a autoproclamada ignorância é extensiva aos seus próprios executivos. Uma pequena nota na secção Gente do Expresso adicionou um picante extra: a nomeação de familiares chegou ao seu inner circle, na pessoa da sua cunhada, Margarida Mealha, que foi assessora de Maria Cavaco Silva.

 

O que é certo é que, contrariando a mitologia, o professor tem consultado, talvez compulsivamente, a comunicação social. O próprio fez questão de o anunciar: “(…) por aquilo que li, não há comparação possível em relação ao Governo a que dei posse em 2015. E, segundo li também na comunicação social, parece que não há comparação em nenhum outro país democrático desenvolvido”. Como não sabemos que órgãos de comunicação social é que o distinto professor consultou, e através de que plataformas (em formato papel? Online?), ficaremos sempre na dúvida se essas leituras iluminaram o seu desconhecimento ou reforçaram o enviesamento ideológico de que parece padecer.

 

Para sermos justos, no meio das mensagens políticas que fez questão de passar, Cavaco Silva até teceu considerações pertinentes, nomeadamente acerca do escasso crescimento económico. E quanto à nomeação de Margarida Mealha, ocorre-me a oportunidade de citar Vasco Pulido Valente (Público, 6 de Abril): “Em 1980, também nomeei uma ex-cunhada para o meu gabinete, na maior paz de espírito. Gostava dela e ela conhecia a ‘casa’. Não me ocorreu que estivesse a cometer um tenebroso acto de nepotismo.” A questão fundamental aqui é que, socorrendo-se da amálgama de situações elencadas no espaço público, o ex-Presidente aproveitou para cavalgar a onda antigovernamental, sacrificando o rigor ao objectivo político. Perdendo a oportunidade de ser pedagógico, preferiu ser panfletário. À apologia das boas práticas e da ética republicana preferiu o enquistamento ideológico. E pelo caminho deu um calamitoso tiro no pé. Citando-o: “Só se deixa enganar quem quer ser enganado”.

 

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