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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

MONICA E O DESEJO

Abril 03, 2018

J.J. Faria Santos

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Mais de vinte anos passados desde os episódios que o jornal Folha de S. Paulo definiu, de uma forma prosaicamente poética, como “Sexo oral no salão oval”, Monica Lewinsky reflecte na Vanity Fair acerca das circunstâncias que rodearam a infame soap opera político-judicial. Revelando ter-lhe sido diagnosticado stress pós-traumático, confessa que na era do Time’s up já não se sente sozinha.

 

Monica continua a frisar que se tratou de um relacionamento consensual e não descarta as suas responsabilidades, mas ao 44 anos diz estar a interiorizar o “vasto diferencial de poder” que existia entre um presidente e uma estagiária, entre ela e o seu chefe, “mais velho 27 anos, com uma experiência de vida” que deveria ter ditado outro comportamento.

 

Num artigo em que começa por citar Salman Rushdie – “Aqueles que não têm poder sobre a história que domina as suas vidas, poder para a recontar, repensar, desconstruir, fazer humor acerca dela e mudá-la à medida que os tempos mudam, sentem-se verdadeiramente impotentes, porque não podem pensar novos pensamentos” –, explica que tem tentado alcançar esse poder, mas que se trata de uma tarefa comparável à de Sísifo. Num testemunho da sua capacidade de resistência face à adversidade, termina a peça citando um provérbio mexicano: “Eles tentaram enterrar-nos; não sabiam que éramos sementes”.

 

E por falar em sementes, ficou na memória de todos o facto dela ter guardado por um período de cerca de ano e meio um vestido azul com uma mancha do sémen presidencial. Talvez o facto de se ter deixado fotografar agora novamente com um vestido dessa cor seja uma forma de reclamar o poder de recontar a história, de transferir a vergonha para quem abusou desse poder. Independentemente do desejo.

JOGO DUPLO - A NOVELA DA POLÍTICA REAL

Março 27, 2018

J.J. Faria Santos

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“Marcelo sempre achou Rio rígido, autoritário e inflexível, e Rio sempre achou Marcelo disperso, a falar demais e pouco confiável”, informou-nos o Expresso em finais de Fevereiro. Não sei se é o jornal que vai à fonte, se é a fonte que vai ao jornal. Sei que o Presidente disse que a única fonte oficial de Belém é ele próprio. Está tudo dito. O título da notícia era: “Marcelo e Rio: da velha zanga à meta comum”. E qual é essa meta? “Evitar a maioria absoluta do PS”, diz o Expresso. Nesta altura, o Presidente ainda se congratulava com a “entrada em cena de Rui Rio”. E preconizava entendimentos entre Rio e Costa? Sim…e não. É que, explica o Expresso, o Presidente acha que Costa tem “habilidade para gerir os outros em proveito próprio”. Portanto, entendimentos sim, mas nada de duradouro. Titulava o jornal que “o PR não patrocina nem confia na dança PSD/PS”. Ele aprecia mais a marrabenta.

 

Passados quinze dias a meta comum parecia mais afastada. O jornal noticiava que o PR dava “um prazo a Rio”. Uma nova variante do líder a prazo sob a tutela do Presidente da República. Marcelo não aprecia o “tempo lento” de Rio, tão antagónico do seu proverbial frenesim. E se até ao Verão o PSD não se afirmar nas sondagens e Costa puder sonhar com a maioria absoluta, o PR, sustenta o semanário, “admite ter de entrar mais em cena [ainda mais?] e voltar a chamar a si momentos de alerta para o que corre pior no país [que pena… logo ele que gosta tanto de dizer que somos os melhores…] acentuando a demarcação do Governo”. A ideia seria fazer uma espécie de Presidências Abertas para “expor fragilidades sectoriais”. Mas Presidências Abertas não será o que Marcelo faz todas as semanas com as notícias colocadas no Expresso? E como na mesma notícia em que uma fonte faz questão de dizer, referindo-se ao Presidente, que “se Rio não for suficientemente a jogo preenchendo os vazios de oposição, terá de ir ele”, se releva que o “PR não se vai meter em domínios que não são os seus”, nós, comuns mortais, não podemos deixar de nos interrogar se do alto da sua lendária inteligência o professor não estará a tentar fazer passar-nos por parvos.

 

Agora, Marcelo teme o atraso das medidas de combate aos fogos. E também as “medidas provisórias”. Dito assim, é o testemunho inequívoco do grau de exigência do PR. Se se planeiam medidas a longo prazo, não se acautela o futuro imediato; se se introduzem alterações rapidamente, ou são mal pensadas ou provisórias. Compreende-se. Rápido e bem, só o genial Marcelo. No meio do fluxo torrencial de declarações, de análises sui generis às entrevistas do primeiro-ministro (o Presidente achará que a entrevista de Costa à revista Cristina significará que o PM estará a apostar num perfil popular para tentar chegar à maioria absoluta), e das cogitações políticas sobre as consequências das tragédias (dirigentes partidários que tiveram audiências em Belém disseram que se houver uma nova tragédia com fogos o Presidente entenderia que não podia segurar o Governo), é difícil perceber o grau de importância que ele atribui ao sacrossanto interesse nacional. A menos, claro, que a sua visão dinâmica da conjuntura política coincida ao milímetro com o interesse nacional, de forma objectiva, geral e abstracta.

 

Em finais de Janeiro, José Pacheco Pereira notou no Público que “o Presidente faz um contínuo metadiscurso sobre tudo o que acontece (…) e esse mesmo metadiscurso aparece agora como um conjunto de prevenções, de sinais, de avisos que, não sendo novo no discurso dos anteriores presidentes, no caso de Marcelo ganha outra amplitude, porque vem mais em continuidade do que foi o seu discurso de comentador de décadas conhecido pelo seu cinismo, a propensão para a intriga e mesmo ajustes de contas nas antipatias próprias”. E concluía afirmando que em tempos de proliferação de populismos, “temos um presidente que não se coíbe de usar as armas dos políticos populistas modernos”.

 

E temos também um Presidente que contrasta com o seu antecessor pelo sentido de humor. Desta vez, em pleno Jerónimos, ele decidiu exercitar o seu humor negro teorizando sobre o impacto de uma tragédia que ali ocorresse em plena cimeira de autarcas. Não, não se tratava de um incêndio. Uma piada desse teor implicaria a sua imediata exclusão do grupo de amigos de Nádia Piazza e a impossibilidade de um convite em plena quadra natalícia. Marcelo, em registo stand-up comedy, atirou: “Já pensaram? Uma bomba aqui era uma crise nas áreas metropolitanas. A única vantagem é que libertavam o Presidente. Já viram o funeral que era? De urnas em fila. Os Jerónimos não tinham capacidade. Havia um problema de mobilidade… Como é que era possível a saída?”

 

Se há coisa que nós sabemos é que ele não pretende sair, nem ser libertado. E que tem um capital político que reuniu graças à habilidade com que utiliza em proveito próprio o afecto que espalha. Um imperativo de consciência empurra-o para um segundo mandato. O interesse nacional unge-o. O desafio é irrecusável. Nem que Cristo desça à Terra.

 

Imagem: caras.sapo.pt

O AMIGO DE ALEX OU O PROCURADOR INGÉNUO

Março 20, 2018

J.J. Faria Santos

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É certo e sabido que Carlos Manuel Lopes Alexandre, “bilhete de identidade 5582428, cartão mecanográfico do Conselho Superior da Magistratura 1208”, celebrado juiz, não tem “amigos pródigos”, daqueles capazes de subsidiar estilos de vida sumptuosos com empréstimos avultados. A menos, claro, que se trate de Orlando Figueira, e a quantia em causa se cifre nuns modestos dez mil euros, E após muita insistência, aceitara porque constatara que o amigo subira na vida, renovara o guarda-roupa, comprara um carro e pusera o filho a estudar nos Estados Unidos.

 

Orlando Figueira, segundo o perspicaz juiz, é “muito crédulo com pessoas que não conhece, ele até tinha o petit nom de ‘ingénuo’”. De tal forma que teve de ser Carlos Alexandre a alertá-lo, quando soube do convite dos angolanos para o amigo trabalhar no departamento de compliance de um banco ou até numa empresa (as hipóteses variaram…), para a necessidade de sair dos processos que envolviam Angola. Mais: quando o descontraído procurador lhe disse que tinha assinado contrato com uma empresa, a Primagest, e iria receber dinheiro antecipadamente, teve de ser o juiz que não se verga ao dinheiro a explicar-lhe: “Não podes receber nada enquanto estiveres no público, isso é um absurdo.”

 

Nada que abale as convicções de Carlos Alexandre. Tirando o facto de Orlando Figueira receber os ordenados pagos pelos angolanos numa conta offshore em Andorra, manobra que permitiu a evasão fiscal. Figueira nunca lhe contara das viagens a Andorra para recolher os adiantamentos. Ingénuo, mas nem tanto. “Fiquei estupefacto”, confessou o juiz quando confrontado com estes factos. A tese do Ministério Público é a de que os empregos que justificam os rendimentos auferidos pelo ex-procurador eram um estratagema para ocultar as luvas pagas em troca do arquivamento da investigação a Manuel Vicente. Orlando Figueira contrapõe que quem lhe ofereceu emprego não foi Manuel Vicente mas sim o banqueiro angolano Carlos Silva. Os indícios podem ser significativos, mas como é evidente Figueira tem direito à presunção de inocência.

 

Não que precise de a invocar. “Testemunho do juiz Carlos Alexandre iliba arguido da Operação Fizz”, titulou o jornal Público em artigo sobre o caso na quarta-feira passada. Apetece perguntar quando é que o caso vai ser arquivado… “Esta pessoa que conheço há 27 anos não é compatível com o recebimento de contrapartidas”, declarou taxativamente o juiz, acrescentando que a corrupção “não está na matriz” de Orlando Figueira.

 

Miguel Sousa Tavares notou no seu artigo no Expresso que o juiz que deu provimento à tese do Ministério Público de que o ordenado que José Sócrates recebia da Octapharma era um esquema para ocultar rendimentos ilícitos é o mesmo que não estranha o adiantamento de um ano de salários atribuído ao seu amigo procurador. Carlos Alexandre testemunhou nunca ter encontrado um “traço na personalidade” de Orlando Figueira que pusesse em causa “a sua honradez e a sua confiabilidade”. Pode ser que Carlos Alexandre, além de arguto juiz, seja um perspicaz profiler, com vista privilegiada para os insondáveis desígnios da mente humana, capaz de destrinçar a verdade e a mentira sem se deixar condicionar pela amizade ou pela animosidade. Ou pode ser que nesta narrativa, afinal, o ingénuo seja outro.

O DESAMOR ACONTECE

Março 13, 2018

J.J. Faria Santos

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A produtora e realizadora italiana Livia Giuggiola, casada com Colin Firth (cujos trabalhos incluem o papel principal na estreia cinematográfica de Tom Ford e também a odisseia pelas ruas de Lisboa até encontrar Lúcia Moniz em O Amor Acontece) admitiu ter tido um relacionamento com o homem que agora acusa de a perseguir, a ela e ao marido. O affair terá ocorrido num período em que o casal se separara e terminado com a reconciliação. Marco Brancaccia, jornalista e amigo de longa data de Livia, terá conduzido, segundo palavras de um representante do actor ao Huffington Post, “uma assustadora campanha de assédio”. Brancaccia declarou ao The Times que apenas se limitara a enviar duas mensagens para Livia via WhatsApp, bem como um email para Colin Firth com detalhes da aventura amorosa. E acrescenta que Livia lhe enviou “centenas de mensagens de amor, fotografias e vídeos, e até um diário.”

 

O fim de um relacionamento, a menos que seja genuinamente de comum acordo, deixa inevitavelmente cicatrizes e conduz fatalmente a recriminações. O arrebatamento, a idealização, a partilha de sentimentos e sensações quando confrontados com a ruína não se encantam com os escombros. É grande a tentação unilateral de encontrar a Fénix nas cinzas de um fogo extinto. E provavelmente ainda mais quando tudo termina em favor de uma segunda oportunidade para um casamento ligado às máquinas.

 

A separação pode instalar no convívio subsequente a estranheza, mas isso não transforma os envolvidos em estranhos. Hanif Kureishi escreveu magnificamente sobre este assunto em Intimidade, um relato acerca da insatisfação conjugal, do apelo da libido e da iminência da separação. A dada altura, Jay prenunciando a sua saída de casa e o abandono de Susan desabafa: “Em breve seremos como estranhos. Não, nunca poderemos ser isso. Magoar alguém é um a[c]to de intimidade relutante. Seremos conhecidos perigosos com um passado comum.”

 

(Intimidade  de Hanif Kureishi foi editado pela Relógio D’Água com tradução de Inês Dias)

E O ÓSCAR VAI PARA...WILDE!

Março 05, 2018

J.J. Faria Santos

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A acção decorre entre o final do século XIX e o início do século XX. Tem um protagonista larger than life, genial e repentista, desafiador e espirituoso. A acção decorre entre os salões dos afluentes e o bas-fond onde se satisfazem os desejos inconfessáveis. Há cenas de tribunal e atrás das grades. E um drama familiar espoletado por um amor proibido e que envolve uma esposa negligenciada e um pai impedido de ver os filhos. E ainda um mau da fita, um rapaz mimado e petulante, cujo comportamento talvez possa ser redimido pela genuinidade dos seus sentimentos.

 

A vida de Oscar Wilde tanto dava um filme que até já deu vários. E incontáveis livros. Um dos mais recentes, Oscar Wilde: The Unrepentant Years de Nicholas Frankel, é o pretexto para John Banville desenvolver na New York Review of Books a sua tese de que o irlandês não terá produzido obra à altura do seu talento, considerando que “a essência da arte” de Wilde residia na forma como ele captava o espírito da época e o traduzia em elegantes aforismos. Embora atribuindo o estatuto de obra-prima às peças A Importância de Ser Earnest e Um Marido Ideal, e destacando De Profundis e a Balada do Cárcere de Reading, é o prefácio de O Retrato de Dorian Gray e o ensaio O Declínio da Mentira que Banville coloca nos píncaros. Sim, as peças são notáveis mas não espelham completamente o seu talento, diz ele, reduzindo-as a uma colecção de figuras unidimensionais, sem espessura, debitando tiradas de indesmentível brilhantismo.

 

Por mais defensável que a tese de Banville seja, prefiro suspeitar que por detrás dela está a velha dicotomia entre alta e baixa cultura, entendidas como categorias separadas e insusceptíveis de indesejáveis contaminações. Wilde teria falhado a construção de uma obra à altura do cânone da academia em favor de uma colecção de soundbites geniais. Como se a profusão de talento, em desordem ou atropelo, impedisse a sistematização e a maturação de um corpo de obra mais consistente. Como se a leviandade ou impulsividade do seu comportamento tivesse reflexo na sua produção literária.

 

Banville cita um observador que diz que Oscar Wilde “se desperdiçou em palavras”. Ou desperdiçou palavras. Um literato metódico e circunspecto, religiosamente empenhado em erigir uma obra monumental e erudita, supõe-se, recorreria ao comedimento para não correr o risco de ser acusado de superficialidade, ou de incapacidade de enquadrar a abundância de recursos. Na verdade, tal cálculo seria impensável da parte de quem escreveu que não existe “nada mais fatal para a personalidade do que a circunspecção”.

 

Imagem: Foto de W. e D. Downey (Wikimedia Commons)

O PADRE EXORCISTA E O TIRANETE PIEGAS

Fevereiro 27, 2018

J.J. Faria Santos

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Como qualquer outro ramo de actividade, também a prática de exorcismos se vê condicionada pela lei da oferta e da procura. Um artigo de Tom Porter para a Newsweek (disponível online) cita o padre siciliano (e exorcista encartado) Benigno Palilla que, em entrevista à Rádio Vaticano, afirmou que a procura de padres com qualificações para combater o demo triplicou nos anos mais recentes, apontando para cerca de meio milhão de casos de possessão demoníaca por ano em Itália.

Anotemos a óbvia simbologia de um padre chamado Benigno ter capacidades para combater o maligno, e saibamos reconhecer a sua clarividência. É que ele não deixa de explicar que a popularidade de adivinhos e de intérpretes das cartas de Tarot induz a proliferação de casos de alegada possessão. Além do mais, Benigno Pallila nota que muitos casos são apenas manifestações de problemas psicológicos e espirituais.

Seja como for, em Abril realizar-se-á em Roma um curso sobre exorcismo. É que, como refere Tom Porter, “em 2014, o Vaticano deu apoio oficial à Associação Internacional de Exorcistas, tornando o exorcismo uma prática reconhecida sob a lei canónica”.

 

Agora que o exorcista Pedro Passos Coelho se retirou da actividade política, é no futebol português que o Diabo parece andar à solta. Diabo é, neste caso, apenas mais um sinónimo de populista, ditador ou tiranete. Bruno de Carvalho apelou aos adeptos para boicotarem todos os meios de comunicação social que não os orgãos do clube e o seu director de comunicação, por acaso um ex-jornalista (o Diabo também está nos detalhes,,.), tratou logo de elaborar uma espécie de Índex. O recuo parcial que depois ocorreu (com o beneplácito para os comentadores do clube continuarem a defender o clube nos media proscritos) não travou a expansão da nódoa.

A chegada de Bruno de Carvalho ao futebol nacional cedo tornou evidente que, por comparação com a sua requintada retórica, a ironia de Pinto da Costa adquiria um fino recorte e os discursos lidos aos solavancos por Luís Filipe Vieira assemelhar-se-iam a solenes proclamações presidenciais. O que é surpreendente é que o homem que escolheu o confronto como estratégia, e que kubrickianamente dorme com os três olhos bem fechados, tenha escolhido o Facebook para se queixar da solidão do poder e para se declarar “triste, sozinho, cada vez mais infeliz”. Como diria o ex-primeiro-ministro, um verdadeiro piegas.

 

Imagem: "Anjo Caído" de Gustave Doré (Wikimedia Commons)

CRÓNICAS DO SEXO

Fevereiro 20, 2018

J.J. Faria Santos

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Sob a pressão de grupos conservadores, o parlamento indonésio está a ponderar legislação que prevê a prisão até cinco anos para as pessoas que pratiquem sexo sem estarem casadas. Ao mesmo tempo, dá conta a curta notícia da Time intitulada A crescente intolerância da Indonésia, prevê-se a ilegalização das relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Por um lado, a sociedade indonésia parece ter-se mobilizado para contrariar esta repressão sobre o acto sexual, o que se manifesta através das dezenas de milhares de indivíduos que se pronunciaram nesse sentido através de uma petição online. Mas por outro lado, numa sondagem recente, “quase 90% dos indonésios que compreendem o termo LGBT declararam sentir-se ameaçados pela comunidade”. O que até se poderá perceber se estas pessoas levarem à letra as afirmações do ministro da Defesa, Ryamizard Ryacudu, que considera os activistas gay “mais perigosos que uma bomba nuclear”.

 

O primeiro-ministro australiano anunciou uma revisão do código de conduta que rege o comportamento dos governantes no sentido de proibir as relações sexuais entre estes e os seus funcionários. A medida surge na sequência da revelação do affair extra-conjugal entre o vice-primeiro-ministro e a sua, na altura, conselheira para os media. Claro que, neste caso, a atitude repressiva não é comparável à do governo indonésio, até porque os ministros australianos podem fornicar livremente com os funcionários dos outros ministérios. Mas não deixa de ser questionável a necessidade de inscrever este género de regras num código de conduta. Pior só as considerações do primeiro-ministro acerca da atitude do seu vice, considerando que a sua acção, e cito a tradução do Expresso, “espoletou um mundo de desgraças para estas mulheres [a consorte e as 4 filhas] e chocou-nos a todos”. Não querendo minimizar o impacto emocional da infidelidade, “um mundo de desgraças” é uma manifesta hipérbole que descamba para o tremendismo e a infantilização.

 

Os Estados Unidos têm estado entretidos com a história da infidelidade de Donald Trump com uma actriz de filmes para adultos, cujo nome artístico é Stormy Daniels. Tudo se teria passado em Julho de 2016, altura em que Trump estava casado com Melania, e os detalhes foram pela primeira vez revelados numa entrevista de actriz à revista In Touch, há sete anos. Soube-se agora que em 2016 Stormy recebeu 130 000 dólares de um advogado de Trump para se manter em silêncio. Claro que esta história terrivelmente banal ( o egomaníaco milionário com predilecção por mulheres-troféu a conquistar a profissional da indústria do sexo, e a subsequente preocupação de ocultação) só interessa à América puritana. A tal que parece mais preocupada em manter as aparências da felicidade conjugal do que em admitir que elegeu um perigoso incompetente para Presidente.

 

Imagem: Foto de Helmut Newton (Courtesy of Bert Christensen)

OS ARDORES DA PAIXÃO SÃO FOGOS DO SENHOR

Fevereiro 13, 2018

J.J. Faria Santos

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“Durante a noite, no meu leito / busquei aquele que a minha alma ama; / procurei-o mas não o achei.”, lamenta-se a Esposa. Mas eis que, depois de percorrer a cidade, o encontrou. “Agarrei-me a ele e não o largarei mais, / até que o tenha introduzido na casa de minha mãe / no quarto daquela que me concebeu.”

O encantamento é mútuo. “O teu porte assemelha-se ao da palmeira / e os teus seios são os teus cachos. Eu disse: ’Subirei à palmeira, / e colherei os seus frutos.’”, desabafa arrebatadamente o Esposo, para logo acrescentar: “A tua palavra é como um vinho excelente / que corre deliciosamente para o amado / e desliza por entre os seus lábios e os seus dentes.”

 

A Esposa mostra-se preocupada com as convenções sociais ou até, porventura, com os constrangimentos morais ou religiosos, expressando alguma frustração por ter de moderar os seus ímpetos amorosos, pois confessa: “Quem me dera que fosses meu irmão / amamentado aos seios de minha mãe / para que, encontrando-te fora, te pudesse beijar / sem que ninguém me censurasse.”

O Esposo, porém, apressa-se a sossegá-la com uma eloquente descrição da vitalidade do amor: “Põe-me como um selo sobre o teu coração, / como um selo sobre os teus braços; / porque o amor é forte como a morte, / a paixão é violenta como o sepulcro, / os seus ardores são chamas de fogo, / os seus fogos são fogos do Senhor. / As muitas águas não poderiam extinguir o amor, / nem os rios o poderiam submergir.”

 

O Cântico dos Cânticos é um dos livros didácticos do Antigo Testamento, sendo apresentado como “um poema em que se canta e exalta o amor humano como fruto da natureza sexuada, origem da complementaridade e convívio social”. E é seguramente um bom ponto de partida para rejeitar interpretações doutrinárias de cariz religioso que censuram a expressão e a vivência dos afectos. Que não só se afastam da sua missão de conforto espiritual como também se aproximam da desumanidade e da tentação dirigista e ditatorial.  Ou então são, pura e simplesmente, insensatas. Porque “muitas águas não poderiam extinguir o amor”, a sua chama divina. Nem sequer a água benta de D. Manuel Clemente. É que estes não são fogos que incineram; são fogos que iluminam e inspiram a existência.

 

Citações extraídas da 8ª edição da Bíblia Sagrada da Difusora Bíblica

Imagem: "Adão e Eva" de Tamara de Lempicka (courtesy of Bert Christensen)

FAZENDO A COSTUMADA JUSTIÇA

Fevereiro 06, 2018

J.J. Faria Santos

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Como se sabe a Justiça luta com uma crónica falta de meios, pelo que nunca é demais sublinhar a oportuna investigação destinada a avaliar os três tipos de crimes que poderiam estar associados aos dois lugares que Mário Centeno solicitou ao Benfica. Certamente que foi devidamente ponderada a apreensão de correspondência electrónica do assessor diplomático e do chefe de gabinete do ministro, e acautelada a possibilidade de aparecerem emails escarrapachados no jornal oficioso do Ministério Público. Estou certo que foi avaliada a proporcionalidade das acções empreendidas, de forma a evitar danos reputacionais ao ministro e ao Estado português, e até à própria Justiça, sempre sujeita a acusações de leviandade. Já para não falar do alarme social causado pela percepção de que um ministro da República, e logo o das Finanças, poderia vender isenções de impostos a troco de um punhado de convites… E das repercussões na imprensa internacional e nas instituições europeias.

 

O inquérito conduzido pela 9ª secção do DIAP de Lisboa foi arquivado porque se concluiu pela inexistência de qualquer crime, dado que, de acordo com o soberbo e esclarecedor jargão jurídico, “as circunstâncias concretas eram susceptíveis de configurar a adequação social e política própria da previsão legal”. Se não percebeu, ou achou a formulação abstrusa, não se sinta diminuído pela sua flagrante ignorância; é que a nobre arte de administrar a Justiça não se coaduna nem com o simplismo nem com a simplicidade. Só uma vanguarda iluminada garante a integridade da decisão. Nas imortais palavras de Joana Marques Vidal: “Os inquéritos são abertos porque se considera que há notícias de crimes. Faz-se a investigação adequada e decide-se o futuro”. Digamos, então, que se o Ministério Público continuar a estabelecer nexos de causalidade com a criatividade e a leveza demonstradas neste inquérito, o futuro promete ser mais acidentado que radioso.

 

Vicente Jorge Silva, no seu artigo dominical no Público intitulado Justiça e jornalismo no esgoto, lamentou que a “conivência entre alguns jornalistas e agentes da Justiça” tivesse atingido “um tal grau de desvergonha que cria laços de dependência e servilismo mútuos”. Especificamente sobre o caso que envolveu o ministro das Finanças, deplorou “que as autoridades judiciais se tenham limitado a reagir, como marionetas acéfalas, à pista maldosa do jornalismo de sarjeta”.

 

É pena que a percepção generalizada de que sob a direcção de Joana Marques Vidal a acção do Ministério Público não se tem deixado condicionar pelo estatuto ou pelo poder dos suspeitos seja manchada por conluios pouco saudáveis (quando não flagrantemente ilegais), pelo resvalar para o populismo e pelas tentações justicialistas. Por ora, a Europa pode suspirar de alívio porque o presidente do Eurogrupo não prevaricou. E Portugal, tirando os guardiães da ética imaculada, pôde comprovar a lisura de procedimentos do seu ministro das Finanças, por causa (ou apesar) da costumada Justiça.

 

Imagem: inimigopublico.pt

SHITHOLE - A SANITA DOURADA

Janeiro 28, 2018

J.J. Faria Santos

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Para Donald J. Trump, uma sanita em ouro de 18 quilates, mesmo com a assinatura do artista italiano Maurizio Cattelan, não deve passar (literalmente) de um shithole. Conforme a definiu Paul Schwartzman no Washington Post, “a sanita em ouro maciço, completamente funcional, é uma peça interactiva intitulada América que os críticos têm descrito como uma sátira incisiva ao excesso de riqueza neste país”. Durante um ano a peça esteve em exibição nos sanitários públicos do quinto andar do Museu Guggenheim, em Nova Iorque, para uso dos visitantes. 

 

É certo que Donald e Melania tinham solicitado ao museu o empréstimo de um quadro de Van Gogh, Paisagem com Neve (a curadora do museu, Nancy Spector, lamentou não ser possível aceder ao pedido), mas não seria de esperar que o Presidente, com o seu gosto por dourados (da talha dourada à chuva dourada) e decorações barrocas, apreciasse a obra de Catellan? Pensando bem, não seria até grandiloquente que ele disparasse os seus tweets fora de horas com o traseiro ricamente acoplado a uma sanita dourada?

 

Spector explicou ao casal Trump que o quadro estava impedido de viajar excepto em ocasiões raras, e mostrava-se esperançada que a oferta da América fosse apreciada. Não é crível que a sugestão de Spector tenha sido desprovida de ironia ou intencionalidade, tendo em conta que no dia a seguir à eleição presidencial escrevera no Instagram: “Este deve ser o primeiro dia da revolução para recuperar a nossa amada pátria do ódio, do racismo e da intolerância”.

 

O jornalista do Washington Post recorda uma característica pessoal de Trump, o facto de sofrer de misofobia, para sugerir que seria improvável que ele aceitasse uma sanita já previamente utilizada. Mesmo sabendo que, durante o período de tempo em que esteve em exibição, aproximadamente de quinze em quinze minutos uma equipa de limpeza tratava de manter o dourado imaculado. Mas, quem sabe? Talvez Trump contrate uma equipa de infecciologistas e arranje maneira de tornar a América de Maurizio Cattelan novamente grandiosa.

 

Imagem: www.guggenheim.org

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