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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A VENDETTA DA JUSTICEIRA

Novembro 20, 2013

J.J. Faria Santos

A veemência das nossas convicções pessoais, uma íntima e avassaladora certeza que seja, quando não substanciada em factos inequívocos, deve constranger a emissão de juízos definitivos. Muito menos deve conduzir, sob a capa da liberdade editorial e da descoberta da verdade, à instrumentalização de um programa de televisão de maneira a que ele constitua uma espécie de tribunal informal, onde a possibilidade de qualquer forma de audição do réu esteja inquinada pela percepção, bem real, pela parte deste da parcialidade da jornalista-juíza.

Foi, no fundo, o que sucedeu com o conflito Manuela Moura Guedes-José Sócrates, sobretudo a propósito do “caso Freeport”, e que culminou na suspensão do Jornal de Sexta da TVI. A propósito deste assunto, Miguel Sousa Tavares escreveu no Expresso, a 12 de Setembro de 2009: “o ‘Jornal de Sexta’, da TVI, era jornalismo isento, igual para todos, rigoroso e fundamentado? Não, tal ninguém se atreveu a dizer. Eis uma curiosa ameaça à liberdade: morre uma liberdade que ninguém se atreve a elogiar.” Comentando as reacções ao contra-ataque de Sócrates (recorde-se a alusão ao “jornalismo travestido”), Sousa Tavares comentava: “Parece, pois que um tipo, pelo facto de ser primeiro-ministro, não pode sequer irritar-se com o banal incómodo de todas as semanas ser tratado como um corrupto por uma televisão com base num processo que supostamente está em segredo de justiça e onde ele, tanto quanto se sabe, nem suspeito é.”

O jornal da TVI não foi o único que pareceu particularmente empenhado nesta matéria muito para além da missão de informar. O semanário Sol e o diário Público prosseguiram com afinco uma linha editorial tão incisiva que se aproximava do panfletário. O provedor do leitor deste último, Joaquim Vieira, no seu artigo de 15 de Fevereiro de 2009, intitulado Free report, escreveu a propósito de uma manchete: “A verdade é que se indicia aqui um inconfessado desejo de incriminação de J.S [José Sócrates]. Para bem da credibilidade do PÚBLICO e da seriedade do seu tratamento de tema tão sensível (…) era bom não existir tal intenção.”

Recentemente, foi bastante publicitado um post  no Facebook de Manuela Moura Guedes em que esta comentava a sua presença num restaurante onde também se encontravam José Sócrates e vários ex-ministros. Em entrevista subsequente à revista Flash , Moura Guedes, depois de ter clarificado, noutro contexto,  que “como jornalista não tenho de ser simpática”, afirmou que, se tivesse passado por Sócrates teria dito “boa noite”. Depois de uma tirada à la Pinto da Costa (“Não conheço o Sócrates. Nunca nos cruzámos”), a agora apresentadora de um programa de entretenimento manifestou a vontade de fazer ao ex-primeiro-ministro uma “entrevista à séria”. A finalizar esta parte da entrevista (e talvez justificando a afirmação que serviu de título a esta peça da Flash : “A fama de mau feitio persegue-me”), Manuela Moura Guedes revelou: “…sabe que pela primeira vez estive em concordância com o Sócrates? Bem, quase concordância. Isto teve que ver com a definição que ele deu de si próprio na entrevista ao jornal ‘Expresso’. Ele diz que era ‘um merda de um moderado’. Só não concordo que seja um moderado.”

Afastemos as tentações do falso puritanismo. Relevemos o traço grosso de quem nunca se distinguiu pela subtileza de gestos, expressões e declarações. A sua imagem de marca enquanto profissional é a frontalidade, a intransigência com que persegue a notícia e interroga o protagonista. O problema é quando a persistência resvala para a intolerância e a convicção para a cegueira, conduzindo a que a sua mais íntima opinião justifique a construção de uma facto assumido como inquestionável. A perda de credibilidade é o dano colateral da guerrilha jornalística. Resvalar para a falta de urbanidade contribui para um rombo no carácter.

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