LOLITA SOFTCORE
Outubro 17, 2013
J.J. Faria Santos
Incapaz de nomear espontaneamente uma das suas canções, muito menos trauteá-las, dei comigo a imaginar se a nova imagem de Miley Cyrus é uma aposta artística consistente, uma algo cínica manobra comercial ou um sintoma de desequilíbrio emocional. As tentativas de interpretação abundam a partir de vasto material de análise, que começa com a actuação nos MTV Video Awards, passa pelo vídeo de Wrecking ball e segue com a polémica com Sinéad O’Connor. Na gala dos prémios MTV, que tive oportunidade de acompanhar, a sua interacção com Robin Thicke deu origem a um dos mais indigentes, patéticos e ridículos esforços de projecção de sex-appeal alguma vez vistos. Qualquer coisa entre o infantil e a pura idiotia.
Mário Lopes, num artigo do Público (6.10.2013), cita a artista Marina Abramovic quando ela afirma que Miley Cyrus “capta algo sobre ser jovem e rebelde”. Já Camille Paglia, num artigo escrito para a Time , refere que “o verdadeiro escândalo foi o quão atroz foi a actuação de Cyrus em termos artísticos”. A pitonisa do pós-feminismo acha que a música pop caiu no mesmo equívoco em que se atolou o mundo das artes plásticas, o qual parece julgar que o efeito de escândalo confere um imediato valor artístico a determinado objecto ou performance. “Sexo não é apenas carne exposta e gestos grosseiros”, conclui ela, “os melhores artistas, como Madonna num teledisco canónico como Vogue, sabem como usar o poder de sugestão e o mistério para projectar a magia da atracção sexual”.
Sempre me pareceu inútil e improdutiva a recorrente necessidade de eleger as herdeiras dos grandes ícones. A singularidade não é transmissível, embora o espaço simbólico o possa ser. Bem pode Miley Cyrus procurar concorrer com Lady Gaga (e porventura Katy Perry) para o trono de sucessora de Madonna. Numa outra pista, largamente distanciada, Rihanna está preparada para receber o testemunho.