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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O ESTADISTA (FROM MASSAMÁ TO THE WORLD)

Setembro 19, 2013

J.J. Faria Santos

“Já alguém se lembrou de perguntar aos 900 000 desempregados de que lhes valeu a Constituição até hoje?”, vociferou ele. Meditamos nestas palavras e é impossível não ver nelas a frieza analítica de um Mitterrand, a determinação de uma Thatcher ou a ousadia de um Churchill. Os conservadores institucionalistas que se arrepiem até à medula, pois o executor do ajustamento não abandonará a linha justa. E única.

É certo que ele se comprometeu, antes das eleições, a não “impor sacrifícios aos que mais precisam”. E a “desonerar a classe média e baixa”. E a não “despedir pessoas nem cortar salários”. E por aí fora. A enumeração exaustiva destes faux pas (para não lhe chamar mentiras, inverdades ou incumprimentos) deixar-nos-ia, a todos nós, justamente à beira da exaustão. E qual é o leitmotiv da sua acção? O estado de necessidade, pois claro! O argumento supremo é o célebre “não há dinheiro”. É difícil imaginar um modo mais indigente de justificar uma “política”. Já para não falar do efeito de confusão que gera nos eleitores este género de asserções, ao mesmo tempo que se destaca na comunicação social o número fétiche dos 21 mil milhões de euros, que tanto se refere ao valor dos depósitos da administração central como ao volume de fundos europeus que se anunciam a partir de Janeiro de 2014. Definir prioridades e critérios para a alocação de recursos, com base num projecto político para a nação que compatibilize os constrangimentos orçamentais com a preservação dos adquiridos civilizacionais, é função incompatível com tiradas populistas e decisões voluntaristas.

É sintomática a reacção epidérmica que o estadista de Massamá provoca no seu próprio partido. Ângelo Correia diz que o PSD não se preparou para ser Governo e que Passos Coelho “não tem consistência”. Pacheco Pereira escreveu em Julho, no auge da crise da coligação, que “o primeiro-ministro, que se tivesse um resto de hombridade já há muito se teria demitido, engole tudo para permanecer no poder”. Há pouco mais de uma semana, acusou o Governo de ter rompido “o tecido social como ele nunca tinha sido rompido desde o 25 de Abril, semeando a discórdia e a divisão, sem qualquer resultado adquirido e sustentável”. Manuela Ferreira Leite classifica os cortes nas pensões da CGA como “uma medida arbitrária” que pode causar “danos dramaticamente imorais”. Comentando a pressão do FMI para a redução dos salários no sector privado, interrogou-se: “Há, por acaso, algum estudo que revele que o problema do desemprego se resolve baixando os salários?”. E, caucionando o chumbo do Tribunal Constitucional “nalgumas situações”, lançou a pergunta: “Nós estamos ou não estamos num Estado de Direito?”. (É verdade que, em tempos, Ferreira Leite levantara a questão da suspensão da democracia por seis meses. Parece que se tratou de um exercício de ironia, que não foi compreendido como tal. Como sabemos, Ferreira Leite a ironizar é como Cavaco a fazer humor: uma absoluta impossibilidade…).

“Não há dinheiro. Qual das três palavras não percebeu?” terá dito num Conselho de Ministros Vítor Gaspar a Álvaro Santos Pereira. É verdade que o argumento é inane, mas não deixa de ser algo divertido ver um professor catedrático ser tratado com esta displicência, para não dizer desprezo. Uma exibição de arrogância que permite duvidar da genuinidade de posteriores manifestações de humildade. Neste momento, o IGCP não está sob pressão para emitir dívida porque as necessidades de financiamento do Estado até ao final do ano e para parte de 2014 já estão cobertas. E, reportando-me só a notícias recentes, continua a haver dinheiro para pagar a assessoria do JP Morgan para a privatização dos CTT ou para promover adjuntos a assessores.

Manuela Ferreira Leite diz que não é admissível manter a discussão acerca dos cortes nas pensões “alheada de princípios e valores”. Talvez esteja equivocado, mas palpita-me que o primeiro-ministro é mais sensível ao pragmatismo radical da rainha do telelixo, Teresa Guilherme, que afirmou um dia que “quem tem ética passa fome”. E não será de excluir vê-lo, um dia destes, ornamentado na lapela com a omnipresente bandeira, num púlpito sóbrio, proclamando pausadamente, no seu estilo de arrogante explicador de falinhas mansas, que a troika não é sensível à justiça social, que os mercados reagem mal a medidas que preservam a dignidade da pessoa humana, ou que a moral não é moeda que os nossos credores aceitem.

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