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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

NOTAS DE UM PRETÉRITO AGOSTO

Setembro 05, 2013

J.J. Faria Santos

O CD – Terá sido por causa da mistura irresistível de jazz, blues  e soul , da harmonia dos duetos com Hindi Zahra e Emily King, da voz que reúne a expressividade com a sobriedade? No beginning no end, de José James, reinou na minha playlist de Agosto e promete fazer a recepção ao Outono. Ah! E aqueles sublinhados de órgão, mas sobretudo o solo de piano, em Do you feel  definem a expressão superlativo. Será excessivo considerar que há muito tempo que os assuntos do coração não tinham um tão inspirado trovador na melhor tradição da música negra?

 

O LIVRO – O que é que se pode desejar de um livro que nos acompanha nas férias de Verão? Que possa ganhar o duelo com o sol e com o mar, que narre sem particular inovação estilística mas com brilhantismo as intrigas de uma corte, que faça o retrato de uma época e o recheie com incisivos retratos psicológicos dos seus protagonistas? O Livro Negro , de Hilary Mantel, é um sucessor à altura de Wolf Hall, ambos justificando plenamente a atribuição do prémio Booker. Reparem nesta deliciosa apresentação de Jane Seymour, futuro alvo da atenção de Henry VIII: “é uma rapariga recatada com uma palidez de prata, o hábito do silêncio e uma maneira peculiar de olhar para os homens como se representassem uma surpresa desagradável.” (Pág.29). E se pensam que as reflexões da Inglaterra do século XVI estão demasiado distantes das inquietações da Europa do século XXI vejam este extracto: “O melhor é não pôr as pessoas à prova, não as forçar à desesperação. Fazê-las prosperar; tendo o supérfluo, serão generosas. As barrigas cheias criam brandos costumes. A beliscadura da fome, monstros.” (Pág. 53 – Civilização Editora – Tradução de Miguel Freitas da Costa).

 

A EFEMÉRIDE – A revista Time, evocando o 50º aniversário da Marcha em Washington, fez uma edição especial celebrando o discurso de Martin Luther King Jr. e avaliando os progressos e as insuficiências de uma causa. 17 participantes na Marcha recordaram o dia histórico em que, acicatado e/ou inspirado por Mahalia Jackson, a lendária cantora gospel (“Tell ‘em about the dream, Martin.”), King se dirigiu às massas embalado por um sonho, logrando aquilo que Jon Meacham chamou “erguer o seu discurso do banal para o histórico, do mundano para o sagrado”. Nesse tempo, como nota o participante Hank Thomas, a liberdade nos EUA tinha “um asterisco”, para assinalar a exclusão dos negros, e a reivindicação de direitos tinha um preço demasiado elevado. Talvez por isso, Nan Orrock, que também se juntou à Marcha, se tenha confessado “esmagada pela noção de estar na presença da coragem”.

Poucas coisas me provocam mais repulsa que a exibição de atitudes, expressões e tiques racistas. Mesmo que sob a capa do paternalismo ou da bondade compassiva. Mas o que verdadeiramente me escandaliza, é que a defesa da superioridade baseada na cor da pele é a demonstração da mais bruta e rematada irracionalidade. Ou estupidez. Uma e outra imperdoáveis há cinquenta anos e inadmissíveis na actualidade.

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