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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

PÓS-JOVENS E PRÉ-SENIORES

Julho 18, 2013

J.J. Faria Santos

                              "As Três Idades da Mulher" de Gustav Klimt

                                        (Courtesy of www.bertc.com)

 

“Sou e serei o que me ditar a alma e as emoções”, respondeu em tom de bravata, por entre alusões a rugas e ao peso dos anos mas com espírito de combate, uma pessoa da minha família a quem dirigi felicitações no seu dia de aniversário. Ela é uma daquelas criaturas que eu imagino sempre num perpétuo movimento, num frenesim de acções, como se qualquer cedência à inércia comportasse o risco de perder nacos de vida irrepetíveis.

O passar do tempo parece suscitar, na generalidade das pessoas, pelo menos três géneros de preocupações: fazer um balanço de vida e preparar um legado, lidar com o receio da degradação física e mental  e gerir o pânico da solidão.

Nem todos conseguem dobrar um marco etário com a panache  e o apaziguamento de Pedro Mexia, evitando que a lucidez descambe para a acidez: “Aos 40, sei que a ‘felicidade’ é uma hipótese estatisticamente improvável ou efémera (…) Já sei que não sou melhor nem pior do que os outros, sei ao milímetro aquilo que valho, sei perfeitamente que não vou deixar vestígio, que desapareço quando morrer a última pessoa que me conheceu. E nada disto é trágico” (Expresso – Atual – 1/12/2012).

A questão da degradação física parece ser uma preocupação mais aguda para o sexo feminino. Carla Bruni, num comentário a um quadro de Klimt, As Três Idades da Mulher, alude à velhice como o período do “corpo inútil” e, à semelhança da velha do quadro, diz proteger o olhar da decrepitude (“je me cache les yeux devant la mort et la décrépitude” – Tableaux de Stars – E.C.A. - 1998). Já Yeats, no seu poema After Long Silence, faz equivaler a decrepitude física à sabedoria: “Bodily decrepitude is wisdom; young / We loved each other and were ignorant” (Poemas, Assírio & Alvim). A exaltação da juventude, que é um dos mantras da sociedade contemporânea, parece uma extensão dos valores do star system da indústria cinematográfica norte-americana. Na era das redes sociais, do Facebook e do YouTube, somos quase todos protagonistas do filme do nosso quotidiano. Talvez a esmagadora maioria das mulheres se reveja nas palavras de Ava Gardner: “Os actores ficam mais velhos, as actrizes envelhecem” (Vanity Fair, Julho 2013).

Para os que temem a solidão, no envelhecimento e não só, é como se ela fosse a prova irrefutável do falhanço, a marca de uma inadequação, de uma incapacidade. Numa outra perspectiva, Pedro Mexia escreveu que “ficamos sozinhos quando somos exigentes (…) quando defendemos as nossas convicções”, um preço que ele está disposto a pagar. Paul Auster, na sua meditação sobre a paternidade em A Solidão Reinventada ( Bertrand Editora, tradução de Ana Luísa Faria), escreve sobre o pai: “Havia quinze anos que vivia sozinho. (…) O mundo fazia ricochete nele, estilhaçava-se contra ele, às vezes aderia a ele – mas nunca conseguia entrar”. E, mais à frente, acrescenta em jeito de diagnóstico: “Para um homem que só consegue tolerar a vida permanecendo à superfície de si próprio, nada mais natural que contentar-se com oferecer aos outros apenas essa superfície.”

Parece-me que infinitamente mais terrível e frustrante que a vivência da solidão é que, numa sociedade que valoriza as aparências, nos contentemos com a superficialidade das relações e prescindamos de descobrir o que de mais fundo existe na singularidade humana.

 

 

 

 

 

 

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