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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O GRANDE FALHANÇO (A NAÇÃO ESTUPEFACTA ESPERA GODOT)

Julho 04, 2013

J.J. Faria Santos

Dois notáveis artigos de duas prestigiadas figuras, How the case for austerity has crumbled  de Paul Krugman e How austerity has failed  de Martin Wolf (ambos disponíveis no site do The New York Review of Books), sublinharam o rotundo falhanço das teorias e da prática da austeridade expansionista.   

Wolf inicia o seu artigo de forma taxativa: “A austeridade falhou. Transformou uma recuperação embrionária numa estagnação. O que acarreta custos enormes e desnecessários, não apenas a curto prazo, mas também a longo prazo: os custos dos investimentos não concretizados, de empresas que não abriram, de competências atrofiadas, e das esperanças destruídas. O que está a ser feito aqui no Reino Unido e também na maior parte da Europa é pior que um crime, é um erro crasso”.

O suporte teórico para a definição destas políticas restritivas assentou, segundo Krugman, quer no célebre estudo da dupla Reinhart-Rogoff (que definia o limiar dos 90% da dívida em percentagem do PIB como o ponto em que o crescimento da economia era afectado) quer num paper  de uma outra parceria, a dos italianos Alberto Alesina e Sílvia Ardagna (o  qual postulava que a cortes significativos na despesa em países desenvolvidos, regra geral, se seguia um período expansionista e não uma contracção). À semelhança do estudo americano (a cujas conclusões Krugman chama o produto de “erros de programação, omissão de dados e peculiares técnicas estatísticas”), o italiano também acabou desacreditado, sobretudo porque nenhum dos exemplos ilustrativos de austeridade seguida de expansão ocorrera num período de crise.  

Quer Krugman quer Wolf destacam a inusitada e drástica alteração de políticas em 2010. Wolf situa o ponto de viragem em Junho, na reunião do G20 em Toronto, que reverteu o estímulo expansionista das cimeiras precedentes, acção que ele rotula de “prematura e pouco avisada”, notando que “quando economias vizinhas se contraem em simultâneo, o impacto é muito pior visto que a redução da despesa em importações de um país significa a diminuição da procura das exportações do outro”. Krugman não hesita na adjectivação: “os resultados foram desastrosos” e a gravidade do impacto, diz ele, foi mais ou menos proporcional ao grau de austeridade aplicada.

Martin Wolf acha que a Alemanha deveria ter sido mais flexível, até como forma de reconhecer que o facto das taxas de juro implícitas da sua dívida soberana serem muito baixas ocorrer  “em parte por causa das crises dos países vulneráveis”, que os níveis do ajustamento dos diversos países poderiam ter sido calibrados doutra forma, e que o BCE poderia ter oferecido as garantias anunciadas na célebre proclamação de Mario Monti dois anos antes, ou seja, em 2010.

Paul Krugman tem uma explicação dual ( e convenhamos não particularmente original) para o comportamento da Alemanha: por um lado, “o establishment  político e intelectual alemão nunca deu grande uso às teorias keynesianas” e, por outro, adoptou uma perspectiva moralista do descalabro das economias do Sul, designadamente a grega sufocada por gastos excessivos e endividamento irracional, perspectivando que uma política determinada de cortes nos gastos e redução dos défices seria recompensada pelos mercados. Qualquer coisa como expiação e redenção.

Wolf acha que “não é demasiado tarde para mudar de rumo”. Krugman defende que “o falhanço em antecipar a crise foi um pecado relativamente menor”, e que “a crise financeira de 2008 foi uma surpresa”. O pecado capital, segundo ele, foi a forma como os decisores políticos ignoraram quase tudo o que os economistas tinham aprendido sobre a forma de combater as depressões e, por outro lado, o desvelo com que os líderes de opinião trataram de acolher todas as teses que justificavam a austeridade.

 

Também por cá, o “consenso luso” acerca das origens e sobretudo dos remédios para os males do país foi esmagador. Qualquer voz dissonante que penetrasse na “barragem austeritária” era rapidamente desqualificada como “ignorante”, lunática ou politicamente comprometida. Ao que parece, agora, o terceiro elemento da coligação PSD-PP-PR que nos governa pretende reunir mais de trinta economistas de várias escolas de pensamento para reflectir sobre as matérias económicas e, se possível, encontrar “denominadores comuns”.

Um bom ponto de partida para a reunião poderá ser a revisitação de um post publicado por Paul Krugman no seu blogue em 13 de Maio, amplamente divulgado na comunicação social e intitulado “Pesadelo em Portugal”, nomeadamente o seguinte trecho: “Não me digam que Portugal tem tido más decisões. Claro que sim; como tem toda a gente e, apesar desses problemas serem piores que os de alguns outros países, como é que pode fazer sentido  resolver estes problemas condenando ao desemprego um vasto número de trabalhadores disponíveis?”.

Há quem alvitre que Belém se poderá transformar num “centro de pensamento económico”. Cavaco Silva, enclausurado na espiral recessiva da sua impopularidade, prossegue a sua metamorfose: da magistratura activa de um cooperador estratégico para a cumplicidade passiva de um notário governamental e, agora, para o papel de presidente em part-time de um think tank.

 

Ao primeiro dia, o rosto emblemático do Grande Falhanço em Portugal, o Joker do ajustamento, demitiu-se admitindo “o incumprimento dos limites originais do programa para o défice e a dívida” e considerando que a sucessiva ocorrência de desvios às metas “minou” a sua “credibilidade enquanto Ministro das Finanças”. Considera-se inapto para a nova fase, a do investimento, por manifestamente não poder assegurar “credibilidade e confiança”. 

Ao segundo dia, o número três do Governo apresentou um “irrevogável” pedido de demissão por imperativos de consciência. Recusou o “caminho da mera continuidade, queixando-se de que o processo de decisão governamental tornava “dispensável” o contributo dele.

Ao terceiro dia, o primeiro-ministro, que na véspera fizera uma comunicação ao país entre o caricato, o irresponsável e o alienado, e o demitido irrevogável preparavam-se para encetar negociações para salvar a coligação e o Governo. Sobre este enredo de telenovela mexicana paira a sombra da inutilidade do reformado (e irreformável) inquilino de Belém. A Nação estupefacta espera Godot.

 

 

 

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