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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

OS PÁSSAROS

Junho 13, 2013

J.J. Faria Santos

                            IMAGEM: "Mulher com Papagaio" de Max Beckmann

                                             (Courtesy of www.bertc.com)

 

O filme começa com a socialite Melanie Daniels, elegante e sorridente,  a entrar na Davidson’s Pet Shop em busca de um mainá e termina com ela ferida, enfaixada e amparada a atravessar aterrorizada um exército de pássaros malignos num cenário apocalíptico. Melanie chega a Bodega Bay com dois “pássaros do amor” (periquitos – love birds) e acaba por ser perseguida e escorraçada por uma espécie de coligação improvável de pássaros do inferno: corvos, gaivotas, pardais, melros. Não apenas ela, claro, mas toda a cidade.

Na sua engenhosa missão de seduzir Mitch Brenner, ela tem de combater não só os efeitos na sua reputação de uma história infame e parcialmente falsa (que envolve um salto despida para uma fonte em Roma), como também o ciúme pouco disfarçado de uma ex-namorada de Mitch e a desconfiança activa de uma mãe mais temente de abandono que possessiva. No auge da histeria provocada pelos ataques, Melanie acaba mesmo por ser apontada como a origem do mal por uma mulher em pânico – a típica situação estereotipada da forasteira que traz a disrupção ao ambiente idílico. Talvez possamos dizer, nesta linha de raciocínio e socorrendo-nos do contraste com a afirmação da ornitóloga de serviço de que os corvos são “residentes permanentes”, que a estadia de Miss Daniels dependia das intermitências do desejo e dos caprichos da reciprocidade.

Alfred Hitchcock realizou, a partir de um conto de Daphne du Maurier, um filme de terror puro, que é aquele que deriva da incompreensão e do inexplicável. Nunca nos é oferecida uma interpretação para o comportamento dos pássaros, apenas acedemos às suas cruas, implacáveis, imprevisíveis e incansáveis arremetidas.  E mais inquietante que os ataques é a quase silenciosa ameaça negra que os precede, e que se vai formando no poleiro dos telhados, em estruturas de metal ou nas imediações das habitações. Na cena final, o triunfo dos pássaros é suportado pelo seu potencial de dissuasão: já não precisam de investir, basta-lhes sugerir o cerco para que o adversário bata em retirada.

Dizem que Hitchcock via neste filme uma forma de nos fazer reflectir acerca das coisas que tomamos como garantidas e fazer-nos duvidar da nossa auto-satisfação. Por outro lado, até poderíamos ver nesta película uma premonitória parábola ecológica – a natureza agredida em revolta violenta. Mas como sabemos bem quais os territórios que Hitchcock gostava de desbravar, percebemos que este é mais um ensaio sobre o medo que não poupa o mais desejavelmente inexpugnável dos redutos: a habitação. Os pássaros entram pelas janelas, pelas portas, pelo telhado ou pela chaminé, até transformarem um lar familiar numa casa devoluta e os seus residentes em autênticos refugiados ou sem-abrigo.

 

 

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