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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

PÓS-STRESS

Junho 06, 2013

J.J. Faria Santos

                                            Imagem: Freefoto.com

 

É um intervalo apenas, sei-o bem, mas este interregno permite uma outra respiração, uma outra ponderação de prioridades e sobretudo a definição de um patamar de intransigência: o ponto a partir do qual a palavra vida ameaça perder o seu significado.

Em plena batalha pelo cumprimento de prazos irrenunciáveis, ao fim do dia, ajustava os auscultadores aos ouvidos e deixava a música fluir. Quase sempre (heresia!) trocava a serenidade do virtuosismo de Glenn Gould (Variações Goldberg) ou de António Pinho Vargas (Tom Waits, June, As mãos), pelos trechos mais acelerados de Emeli Sandé (My Kind of Love, Heaven) ou Jessie Ware (Wildest Moments, Sweet Talk). A saturação da cavalgada laboral exigia a explosão do ritmo. Era como se o andamento da vida quotidiana exigisse a permanência de um presto vivace, bloqueando qualquer veleidade de andante sostenuto  ou adagio apassionato.

“O nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados”, escreveu José Tolentino Mendonça (ExpressoRevista – 25/05/2013). O que me fez rememorar um texto de Antonin Artaud, genericamente intitulado Os sentimentos atrasam, onde se pode ler: “Os sentimentos atrasam, as paixões atrasam, as instituições atrasam, está tudo a mais, nesse demais sempre a pesar sobre a existência, ela própria uma ideia a mais (…) não há profundidade nas coisas, não há além, nem mais voragem do que a que formos capazes de lá pôr ” (Hiena Editora).

Seremos capazes de criar um movimento de resistência? E será a resistência suficiente ou a dimensão do retrocesso exigirá uma espécie de reconquista? A própria crise económico-financeira, a falência do pleno emprego e a reformulação dos tempos e dos modos do trabalho contribuirão para a construção de um novo paradigma que regule a nossa existência?  “Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir (…) Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver”, diagnosticou Tolentino Mendonça na sua notabilíssima (só o superlativo lhe faz justiça) crónica intitulada A arte da lentidão.

Poderemos ser felizes vivendo como se corrêssemos em perpétuos sprints extenuantes provas de velocidade ou atingiremos a redenção da maratona? Ou, quiçá, teremos desistido de acreditar na ventura?  “O mundo é um sítio onde há infinitamente mais gente infeliz que feliz. Eu sou feliz.(…) O amor, a amizade e a arte é o que ainda me faz estar vivo”, afirmou Paulo Nozolino em entrevista ao Público (12/05/2013). Referindo-se a um seu trabalho acerca do mundo árabe, de título Penumbra, Nozolino afirmou que “’penumbra’ é um lugar escuro e significa viver uma existência sem glória”. Estaremos reduzidos à escolha entre o frenesim das luzes da ribalta e a inglória da penumbra?

O vagar não tem de ser sinónimo de improdutividade, estagnação ou indolência; pode ser  um exercício de ponderação, fruição ou revitalização. A penumbra não tem de ser sinónimo de renúncia, irrelevância ou indigência; pode ser um posto de recolhimento, observação e reflexão. No vagar da penumbra tanto se pode operar um encontro de vontades como se manifestar uma vontade de encontros.

 

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