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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

REDUZIR À EXPRESSÃO MAIS SIMPLES

Maio 23, 2013

J.J. Faria Santos

No dia 11 de Março de 2011, Passos Coelho recebeu um telefonema de Durão Barroso em reacção à sua decisão de chumbar o PEC IV. “Não pode chumbar isso! (…) Isto com a Grécia foi horrível, se você puder evitar isso é o mais importante. Depois terá uma oportunidade…” (in Resgatados – Os Bastidores da Ajuda Financeira a Portugal de David Dinis e Hugo Filipe Coelho). Treze dias depois, ainda segundo o relato descrito neste livro, Angela Merkel, que “fora ao Parlamento alemão lamentar, profundamente, o chumbo do Programa de Estabilidade português”, quis saber se havia alguma hipótese de recuo e tratou o então líder do PSD de uma forma “fria e irónica”.

O Governador do Banco de Portugal declarou ao Público: “Testemunhei que a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu não queriam que Portugal fizesse um pedido de assistência financeira, igual ao grego e ao irlandês, e estavam empenhadas na aprovação do PEC IV.” A 29 de Março, na ressaca da não aprovação deste documento, afirmava Ricardo Salgado: “O chumbo do PEC IV precipitou os downgrades das agências de rating sobre a banca. Quem diz que os ratings da República e dos bancos também cairiam se fosse aprovado não sabe o que diz, pois não é verdade. Basta ler os fundamentais das decisões das agências de rating.”(in O dia em que Sócrates pediu a Cavaco para o salvar da troika, artigo  de Cristina Ferreira).

Por que razão é relevante rememorar tudo isto agora, dois anos depois? É que dá-se o caso de um relevante dirigente do CDS, António Lobo Xavier, ter dito no programa Quadratura do Círculo, segundo a descrição do editorial do Público (edição de 18 de Maio), que “a assinatura do memorando poderia ter sido evitada se o PEC IV não tivesse sido rejeitado pela oposição.” Parece que a “narrativa” socrática já não se circunscreve ao próprio e aos seus correligionários e adquiriu um carácter transversal ao espectro político…

 

Regressemos a 2013. “Estamos hoje pior do que há dois anos quando se pediu o resgate internacional: Portugal, a democracia, a economia, as finanças, a sociedade”, afirmou Pacheco Pereira (Público, 4.05.13). Miguel Sousa Tavares prognosticou (Expresso, 4.05.13) que Vítor Gaspar “dará cabo do país e não deixará pedra sobre pedra se não for urgentemente dispensado e mandado regressar à nave dos loucos de onde se evadiu” e que “este Governo vai rebentar, tem de rebentar.” Miguel Veiga (Expresso, 23.03.13) vociferou: “Estes tipos não têm convicções. Simplesmente não têm uma ética de convicções e, portanto, não têm uma ética da responsabilidade. Querem o poder pelo poder. (…) não são homens de Estado. São políticos de aviário.” Enquanto Bagão Félix sugere que um governo PS-PP poderia ser melhor que o actual e Manuela Ferreira Leite, a propósito das medidas a incidir nos pensionistas e reformados, fala em “crueldade” e “desumanidade”, Mário Soares já defendeu a demissão do Governo (“Não tem rumo nem sabe o que quer e o que faz”) e apelida Passos Coelho de “grande demagogo, que cada vez que fala diz coisas diferentes e que tem prometido tudo e o seu contrário” (Público, 3.05.13).

 

Há dois anos, para além das propostas de cariz marcadamente ideológico, o que supostamente distinguia Passos Coelho de José Sócrates eram questões de personalidade. O primeiro era cordial no trato, claro na exposição das ideias, convicto na defesa das propostas, prometia um relacionamento colaborante com a oposição e um compromisso inalienável com a verdade, dizia-se; o segundo era agressivo de temperamento, sinuoso no discurso, intolerante com quem o contrariava, corrosivo com os adversários, desajustado da realidade e com tendência para a efabulação, dizia-se. 

Em 2013, a cordialidade de Passos Coelho é abafada pela frieza e pela insensibilidade, as suas declarações caracterizam-se pela tortuosidade e pela indefinição, a convicção adquiriu a tonalidade da teimosia, desprezou a oposição e os parceiros sociais, mostra-se incapaz de assegurar a coesão do Governo e de cercear o estado de guerrilha com o parceiro de coligação, ignora a realidade e, por fim, conseguiu a proeza de levar o incumprimento e a contradição das promessas eleitorais a níveis nunca antes atingidos.

Poderíamos elaborar teses mais ou menos sofisticadas acerca das debilidades estruturais da economia portuguesa, do impasse do projecto europeu ou da agenda ideológica do Governo. Poderíamos, também, dissertar sobre a vidente de Belém e sobre o regresso da divina intercessão, um claro sinal de desespero, de impotência, de asquerosa manipulação das crenças ou de ausência de noção do ridículo. Mas nada como reduzir a conjuntura política à expressão mais simples: conjugaram-se, lamentavelmente, nesta legislatura, a pior crise da nossa democracia com o pior primeiro-ministro da democracia e com o pior Presidente da República da democracia. A estabilidade não pode ser a apólice de seguro do insuportável e do ilegítimo. Mesmo para os que possam achar que temos o pior líder da oposição da democracia.

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