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NO VAGAR DA PENUMBRA

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DOGMA E CONSENSO

Maio 16, 2013

J.J. Faria Santos

A ideia de alguém promover uma festa para celebrar o falecimento de uma outra pessoa desperta em nós uma certa repulsa pela conjugação do ressentimento com a desumanidade. Sabemos, porém, que raramente a grandeza triunfa sobre o imperdoável. E para muitos britânicos Margaret Thatcher foi a encarnação do mal.

Andrew O’Hagan escreveu na New York Review of Books que ela “fora sempre uma política forjada num dogmatismo rígido, quase sociopática na sua incapacidade para ver os seres humanos para além das percentagens que brandia como facas”. Acusando-a de ter protagonizado um lamentável trabalho de engenharia social,  conclui que tal “deve ter parecido heróico no papel ou nos ensaios de Milton Friedman” mas teve resultados funestos. O’Hagan chega ao ponto de citar o depoimento de um colaborador dela, Matthew Parris,  transcrito em The Spectator’s : “Ela tinha coração? Em dois anos de trabalho com ela nunca cheguei a nenhuma conclusão, no entanto, a minha admiração por ela só aumentou”.

Catherine Mayer recorda na Time que Thatcher chegou a Downing Street em 1979 citando S. Francisco de Assis, designadamente “Onde houver discórdia que eu leve a harmonia”, o que só pode ser interpretado, face ao futuro desempenho governativo, como a benevolência ocasional da vencedora do jogo democrático. A força das suas convicções (como bem nota a autora, ao mesmo tempo um defeito e um trunfo) não lhe outorgava flexibilidade para estabelecer pactos ou fomentar o consenso, que, de resto, ela via como “o processo de abandonar todas as crenças, princípios, valores e políticas”. 

Mayer, que é menos demolidora na sua visão de Thatcher que O’Hagan, visto que reconhece a necessidade de algumas reformas económicas por ela conduzidas, censurando apenas o pouco cuidado com o seu impacto social, defende que “a história do thatcherismo é também a história do falhanço da esquerda em articular uma alternativa viável”.

Mais de três décadas depois de Maggie ter chegado ao poder, a Europa enfrenta as piores consequências ditadas pelo triunfante consenso liberal e, pelo menos em Portugal,  as esquerdas parecem continuar fiéis à sua ilusão de que mantendo-se biologicamente puras e cordialmente divididas acabarão por prevalecer eleitoralmente. Uma incapacidade para estabelecer consensos ironicamente mimética da de Thatcher.

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